Sonho e realidade

Por Mino Carta – Da RevistaCartaCapital

Os fados costumam arcar com um papel importante, às vezes decisivo, na história do Brasil. Em meio ao caos precipitado pelo golpe de 2016 irrompe o elemento-surpresa de sorte a abrir uma perspectiva para a saída da crise. A solução correta, pacífica e inteligente, está na convocação de eleições diretas antecipadas no prazo mais curto possível. Ao povo a palavra final.

Não faltam pedras neste caminho, a se considerar que as instituições da República inexistem, enquanto os senhores da casa-grande cuidarão, conforme a tradição manda, de conciliar seus interesses com a nova conjuntura.

Houvesse condições de confiar nos poderes republicanos, contássemos com Legislativo e Judiciário à altura da situação, poderíamos apostar em um retoque constitucional capaz de reduzir ao mínimo o tempo de um governo provisório eleito indiretamente para logo alcançar o momento das diretas.

Corremos o risco, contudo, de ter de padecer a súbita presença no Planalto de Cármen Lúcia, por exemplo, ou Nelson Jobim. Pasmem: talvez Fernando Henrique. E que tal Henrique Meirelles?

Não duvidemos que seja este o projeto de saída acalentado pelos golpistas e não nos deixemos enganar se a mídia nativa se apressasse a abandonar o barco que soçobra. Trata-se de um específico barco, e não do transatlântico das prepotências e das artimanhas da casa-grande.

Os barões midiáticos saberão instruir editorialistas, colunistas, repórteres, âncoras, locutores, no sentido que lhes convém, a eles apenas e não ao País.

Nos corredores da casa-grande ouve-se murmurar os nomes mais cotados para reger a orquestra do futuro e ninguém como Henrique Meirelles, o homem para todas as estações, seria mais adequado para a manutenção do projeto de país até hoje comandado por Michel Temer.

Diga-se que aos infinitos atributos de Meirelles soma-se o de ter sido presidente do conselho de administração da holding da JBS, de 2012 a 2016. Sublinho, JBS, a empresa do Joesley, o grande acusador do momento.

A capa de Veja pós-depoimento na República de Curitiba tem a força altamente simbólica de toda a ferocidade, no nível extremo e mais vulgar, que o ódio de classe pode atingir no Brasil do golpe de 2016. A campanha das Lojas Marisa por ocasião do Dia das Mães não deixa por menos. E é fácil imaginar os aplausos que saudaram as duas iniciativas e os cumprimentos calorosos recebidos pelos autores, celebrados por sua genialidade.

Vivemos um estado de exceção em que tudo se permite impunemente. A casa-grande manda sem intermediários, ao contrário da ditadura da segunda metade do século passado, que entregou aos militares o serviço sujo. Assenhorou-se das instituições e fez delas suas aias, valeu-se da colaboração dos milenaristas curitibanos e confirmou a mídia nativa no departamento de propaganda. Os jagunços prontificam-se a vestir uniforme policial.

E os barões midiáticos são titulares da mansão, representada País afora, uma das suas dependências se estabelece no Rio de Janeiro nas cercanias da Lagoa Rodrigo de Freitas e em São Paulo às margens fétidas do Rio Pinheiros. Dali reinam os senhores Marinho, e ganham, inclusive, a genuflexão de políticos que se dizem de esquerda: o apoio do plim plim é indispensável à sua ascensão. Vale acrescentar que uma entrevista nas páginas amarelas de Veja também é muito valiosa.

Em diversas passagens dos governos de Lula e Dilma, a Secom virou antessala da Globo, enquanto CartaCapital era definida revista chapa-branca por praticar o jornalismo com o respeito devido à verdade factual, embora punida por um critério técnico que na Inglaterra teria fulminado The Economist. Nem se fale dos tempos do ministro Paulo Bernardo. Como propagandista das vontades da casa-grande, a mídia esbalda-se agora, fiel à tarefa de semear o ódio contra o operário ousado além da conta e do seu partido.

Escrevi mais de uma vez neste espaço que a vitória de um ex-metalúrgico nas eleições de 2002 representava um divisor de águas na história do Brasil, ao inaugurar uma nova estação política em busca da democracia autêntica, até então impedida pela monstruosa desigualdade social. Iludia-me, como já se dera inúmeras vezes. Mudança houve, contudo, no sentido oposto e o Brasil correu vertiginosamente no rumo do passado remoto.

Nos dois mandatos de Lula, o País tornou-se protagonista na ribalta da política mundial, hoje passa a figurar no coro grego dos desgraçados. Os vendilhões da pátria que dizem amar, conforme convém aos canalhas, cuidam de assegurar-lhe a condição de súdito de algum império. E quem haverá de impedi-los? Por ora, não é imaginável a revolta das ruas.

Dizia um grande brasileiro, exceção obviamente, Joaquim Nabuco, que não bastava abolir a escravidão, seria preciso acabar com a cultura da escravidão, caso contrário o Brasil padeceria mais três séculos de prepotência e atraso. Palavras escritas há bem mais de cem anos, tragicamente proféticas.

Manter a maioria neste limbo, neste prematuro oblívio, foi o objetivo da chamada elite, sempre eficaz nos seus intentos, como costumava sublinhar Raymundo Faoro. Sábia apenas no empenho de manter de pé a casa-senzala e a senzala, ao mesmo tempo incapaz de entender que o povo é um tesouro do País, a par das inúmeras dádivas oferecidas pela natureza.

História dolorosa até o absurdo absoluto dos dias de hoje, sem descurar de variados aspectos da situação. Elite cada vez mais ignorante, grosseira, exibicionista, feroz. Podemos entender a resignação de quantos trazem nos lombos a marca da chibata, assim como podemos perceber a índole e os humores da chamada elite ao confrontar os senhores atuais com aqueles desenhados por Debret, enquanto escravos agitam sobre suas cabeças leques descomunais. São exatamente os mesmos.

Neste cenário, e com tais personagens, ainda há quem suponha viver em um recanto digno da contemporaneidade. Nutrem os pretensos letrados a certeza de que convivem aqui direita e esquerda, como se houvesse ideologias vivas além daquela da predação.

Sim, haverá um ou outro conservador, ou liberal à moda antiga, algum respeitável leitor de Marx e Gramsci, assim como há os generosos e solidários leitores de CartaCapital. Mas a dicotomia criada à sombra da Revolução Francesa nas nossas paragens, sobretudo nesta quadra da história, não tem a mais pálida chance de medrar.

Não sei se teremos a ventura de assistir à reedição da campanha das Diretas Já de 1984. Reuniu milhões em ruas e praças, foram as primeiras, fluviais manifestações populares movidas pelos mais dignos intuitos. Recordo, porém, e com pesar, que José Sarney, futuro presidente da República, foi quem comandou no Congresso a rejeição da emenda das diretas por uma vantagem de dois votos apenas.

CartaCapital certamente apoiaria a candidatura de Lula se a razão acabasse por triunfar e vingasse a solução das eleições antecipadas. Um destacado juiz italiano, Gerardo Colombo, integrante da força-tarefa da Mani Pulite, na qual Sergio Moro diz inspirar-se, veio ao Brasil no ano passado para entender de perto o funcionamento da Lava Jato.

No regresso à Itália disse textualmente ao amigo Antonio Vermigli: “Se Mani Pulite tivesse se portado como o juiz Moro, nós é que teríamos acabado na cadeia”. Vermigli é um carteiro toscano que, depois de aposentado, tornou-se respeitado ativista político e bom amigo de Lula, e como tal participou de uma recente reunião na Câmara dos Deputados em Roma com os advogados do ex-presidente, chamados a expor irregularidades e absurdos jurídicos cometidos pela República de Curitiba.

Sinto muito comunicar aos nossos fiéis leitores que este é o meu último editorial, só voltaria a escrever se as diretas fossem convocadas sem maiores delongas e se, finalmente, a justiça fosse feita. Minha ausência neste espaço não significa que abandono a pequena e valente equipe de CartaCapital, de honestos praticantes do jornalismo, tanto mais em um momento de dificuldade extrema. Estamos asfixiados financeiramente por um governo ilegítimo, sabidamente corrupto, e pelo abandono de setores do empresariado que outrora tinham maior compromisso com a diversidade e a pluralidade.

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