Capitalismo? Nem pensar

Por Luiz Gonzaga Belluzzo – Da Revista CartaCapital

Relembrar e reescrever velhos temas é obrigatório no Brasil, país que se precipita na decadência sem experimentar a civilização. O tema é velho, mas não tão velho quanto as traquitanas que os atuais donos do poder pretendem nos impingir.

O leitor de CartaCapital há de perdoar minha insistência nas velharias contemporâneas. Vou bater na tecla da industrialização e no seu contrário, a desmontagem do arranjo institucional que levou o Brasil a transitar do modelo primário-exportador para a etapa industrial. 

Ao longo do período de 1930 a 1980, o Estado constituiu formas superiores de organização capitalista, consubstanciadas: 1. Num sistema financeiro público. 2. Em grandes empresas estatais, replicando o “capitalismo organizado” das industrializações avançadas. O fato de o Estado coordenar e capitanear a industrialização conferiu ao capitalismo brasileiro retardatário a condição da economia mais desenvolvida entre os países da periferia.

O éthos do desenvolvimento nasceu da aliança entre as camadas empresariais nascentes, o estamento burocrático-militar, lideranças intelectuais e o proletariado em formação. O projeto era aproximar o País das formas de produção e de convivência que não poderiam ser alcançadas através da simples operação das forças naturais do mercado.

Esse arranjo de classes sofreu as dores da convivência conflitiva com as oligarquias agrárias. A repactuação continuada desse compromisso deu sobrevida às mazelas do colonial-escravismo: a persistência da estrutura agrária; a reprodução e ampliação das desigualdades sociais, transportadas do campo para a cidade; o patrimonialismo e o rentismo que assola o sistema financeiro; a eterna revolta contra o pagamento de impostos por parte dos endinheirados.

O esforço de cinco décadas empenhado na construção da arquitetura econômico-política nacional sucumbiu à desorganização dos anos 1980. O colapso do endividamento externo impulsionou a crise monetária e fiscal que perdurou até o Plano Real.

No entusiasmo das merecidas celebrações do Plano Real, uma ilustre figura do “Novo Renascimento” chegou a proclamar que os tempos do nacional-desenvolvimentismo foram “40 anos de burrice”. Quando prolatada, essa sentença de condenação do passado projetava o poder e o prestígio do real forte.

Era, então, de mau gosto, para não dizer quase proibido, lembrar que   o prolongado desfile de burrice, afinal, liberou o Brasil e os brasileiros da dependência da exportação de café e de outros produtos agrícolas menos votados – além do bicho-de-pé, da febre amarela e da hemoptise –, forjando a mais importante economia urbano-industrial do então chamado Terceiro Mundo. 

Não por acaso, a febre amarela está de volta. A década perdida dos 1980 revigorou a febre liberal-cosmopolita das camadas dominantes, fazendo caducar os compromissos firmados em torno do objetivo comum do desenvolvimento.

Desde então, o liberalismo à brasileira retornou às suas origens: autoritário, oferece aos enriquecidos o roteiro para a disseminação das ilusões que vão eternizar as realidades do crescimento meia-boca. No mesmo realejo tocam a ladainha do “populismo”, para enquadrar os recalcitrantes que insistem na garantia dos direitos das classes subalternas. As reformas modernizantes fazem conluio com os ranços e rancores que ora predominam no âmbito político-jurídico.

Nos anos 1990, as políticas “inteligentes” sugeridas pelo consórcio dos ricos, bonitos e cosmopolitas prometiam tirar o País das armadilhas do capitalismo organizado. Depois de 20 anos de privatizações, câmbio valorizado, importações predatórias e submissão aos poderes da finança desregulada, restam as apostas na flexibilização do mercado de trabalho e na reforma da Previdência.

Em sua Santa Cruzada, o liberalismo à brasileira amaldiçoou a sinergia entre o público e o privado nos anos de crescimento acelerado. Exemplo: a privatização das empresas públicas removeu o arranjo que garantia o desenvolvimento da indústria de bens de capital. Isso foi decisivo para impulsionar o processo de desindustrialização.

Sob os auspícios da mídia-empresa, é quase impossível debater os riscos abrigados na desmontagem dos nexos que articulavam o crédito direcionado, as empresas públicas e o setor privado, nacional e estrangeiro. Os “liberais” acham que isso não tem a menor importância: bastam a estabilidade e a previsibilidade macroeconômicas para lançar o País numa trajetória do progresso e do bem-estar geral. É certo que, por esses caminhos, chegaremos, enfim, ao sonhado paraíso da economia de mercado. Capitalismo, que dizem ser formidável, nem pensar. 

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