Contorcionistas morais e políticos

Por Marcos Coimbra – Da Revista CartaCapital

O pensamento progressista e democrático brasileiro, tão achincalhado pelo que vem acontecendo de 2015 para cá, olha os acontecimentos recentes com uma mistura de sentimentos. De um lado, a crise de Michel Temer confirma tudo que se temia. Quem se insurgiu contra o golpe que derrubou o governo legítimo de Dilma Rousseff está triste, constatando para onde o País foi levado.   

De outro, porém, é impossível ver as trapalhadas de Temer para permanecer no cargo e as barbeiragens de seus antigos amigos para tirá-lo, sem uma ponta de satisfação. É engraçado assistir ao contorcionismo moral e político dos que se achavam com as rédeas na mão.  

Os vencedores do impeachment, no empresariado, nos conglomerados de mídia e no sistema político, queriam Michel Temer, apesar do que sabiam dele, por imaginar que conseguiria construir as maiorias parlamentares exigidas para aprovar uma agenda regressiva e antipopular.

Como não possuía significado político próprio, calculavam que poderiam usá-lo a seu bel-prazer, bastando que fizessem vista grossa às suas estripulias. 

Em parte, funcionou. Temer terceirizou a política econômica, entregando-a ao mercado financeiro. Enquanto isso, montou um ministério de nulidades, levando a nível inaudito a subordinação das políticas públicas à lógica de interesses menores.   

Só um tolo não seria capaz de antecipar que, se necessário, ele utilizaria suas habilidades para outros fins, como, por exemplo, se salvar. Que, caso fosse encantoado, Temer responderia com as armas que sabe manejar (as mesmas que o haviam levado ao poder e a tornar-se atraente aos olhos da elite).

Nomeações no Executivo, colocando somente correligionários fiéis em cargos estratégicos. Indicações para o Judiciário, cuidadosamente utilizadas pelos governos do PSDB. Formação de maiorias parlamentares, cevadas com verbas e tratadas com o carinho de quem está sempre disposto a ouvir confidências (em vez da “grossura” de Dilma). Em suma, fazendo aquilo que os governos do PT fizeram pouco ou não fizeram. 

O voto do presidente da casa, Gilmar Mendes, absolveu a chapa Dilma-Temer no TSE

Para perplexidade dos que supunham que Temer nada mais era que seu miquinho amestrado, ele não aceitou morrer quando resolveram descartá-lo. O feitiço virou-se contra aqueles que acreditavam controlar o jogo. 

O episódio mais divertido do último escândalo foi o modo como o Sistema Globo reagiu ao resultado do Tribunal Superior Eleitoral. Seus porta-vozes estão até hoje atônitos com a ousadia de Temer de se recusar a ir calado para o cadafalso. 

Cabe dizer aos responsáveis pelo que estamos passando: “Bem feito!” Ou, como falavam nossas avós: “Quem pariu Clemente, que o aguente”. Temer, apesar de tudo que é, não é o carrinho de pilhas ganho de presente de Natal que parou de funcionar, que a elite joga fora na hora que quiser. 

Escandalizar-se com a decisão do TSE, além de revelar menosprezo pelos aspectos jurídicos que ela suscita, é esconder que, do ponto de vista substantivo, o questionamento pelo PSDB da chapa Dilma-Temer foi uma hipocrisia.

À luz do que sempre soubemos e do que hoje está explícito, sustentar que a chapa tucana sofreu “abuso de poder econômico” chega a ser uma piada. Ela foi financiada da mesma maneira, pelos mesmos pagadores, quase sempre no mesmo valor. A única diferença é que muitos davam sorrindo ao PSDB o que deram de má vontade ao PT (que é, aliás, onde nasce a noção de que os arrecadadores petistas “extorquiam”).

Esses desarranjos no interior das elites são trágicos, pelas suas consequências, e são cômicos, pelo ridículo que mostram. Mas não afetam as questões que nos confrontam. Tampouco importa muito se Temer sobreviverá à atual crise e por quanto tempo durará. 

Depois da sucessão de equívocos que impuseram ao País, é preciso fazer o quanto antes uma repactuação entre as forças que compõem nossa sociedade. Só há um caminho para fazê-la: por meio de eleições democráticas. 

Seja agora, como preferem praticamente todas as pessoas, seja no ano que vem, o fundamental é que ninguém, a não ser o próprio eleitor, tenha o direito de determinar quem pode participar delas, para vencer ou perder. Não haverá pacificação se grupelhos instalados no aparelho de Estado insistirem em querer impor suas “convicções” às aspirações da maioria.

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