As eleições e as reformas

Por Luiz Gonzaga Belluzzo – Da Revista CartaCapital

Leio na edição de 21 de junho do Valor Econômico: “Eleição de 2018 ameaça reformas, dizem analistas”. Tal conjectura foi metabolizada nos cérebros quase célebres do Instituto Millenium. O think tank que reúne personalidades da dogmática dominante – econômica e antissocial – desfilou suas certezas a respeito das reformas da Previdência e trabalhista.

As reformas, dizem os millenaristas, são passaportes com vistos carimbados para o Jardim das Delícias da globalização e da racionalidade. Estão ameaçadas pelo populismo eleitoreiro.

As consciências ingênuas sucumbem à linguagem performática da globalização. Significados e significantes disseminados nos meios de comunicação para celebrar a natureza benfazeja das mudanças que teriam ocorrido na economia e na sociedade desde os anos 1980: 1) a homogeneização do espaço econômico e a submissão crescente das malfeitorias da política aos critérios racionais do mercado; e 2) daí, a inevitável aproximação entre formas jurídicas, estilos de vida e padrões culturais dos povos.

Essas concepções não conseguem esconder o seu código genético. São filhos bastardos do universalismo e do progressismo iluministas, cujos genes permitiram o nascimento e o desenvolvimento do liberalismo e do marxismo.

Para os liberais, a universalização das formas de convivência engendradas pelo mercado é a única capaz de preservar a liberdade do indivíduo diante das pretensões do despotismo e do arbítrio do poder político, eivado de irracionalidade.

Para a escatologia de certo marxismo, a universalização da forma mercadoria, realizada através do expansionismo capitalista, só cumprirá as promessas de liberdade e igualdade quando sua dimensão despótica, particularista e destrutiva for domesticada pela dissolução da propriedade privada na propriedade coletiva sob o controle dos produtores diretos associados.

Em seu desenvolvimento concreto nos últimos 40 anos, a globalização cumpriu os desígnios centrais do capitalismo: 1) A mercantilização acelerada de todas as esferas da vida, inclusive daquelas até agora protegidas (amor, lazer, religião); 2) A universalização da concorrência; e 3) A concentração do poder econômico e a consequente desvalorização da política democrática.

Essa tríade reverteu as tendências a uma maior igualdade, no interior das classes sociais e entre elas, observadas no período que vai do fim da Segunda Guerra até meados dos anos 1970.

A intensificação da concorrência capitalista impôs a redução do tempo de trabalho socialmente necessário, ao mesmo tempo que acelerou o processo de concentração do capital e da riqueza. Na era do Capital do Século XXI, os descendentes-rentistas de Père Goriot acumulam “tempo livre” sob a forma de capital fictício (títulos que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza), enquanto para os mais fracos a “liberação” do esforço se apresenta como ameaça permanente do desemprego, crescente insegurança e precariedade das novas ocupações, exclusão social.

Na nova era, a economia política dos dominantes pretende condicionar o acesso de todos os bens da vida aos constrangimentos da acumulação de riqueza sob as formas monetária e abstrata, estreitando o espaço ocupado pelos critérios derivados do mundo concreto das necessidades humanas. Os populistas do povo querem comer, vestir, educar-se, passear, garantir a velhice digna e acolhida.

Aprisionar os cidadãos à lógica do “dinheiro que produz mais dinheiro” encontra resistências dos deserdados e abandonados. Mas o projeto de reduzir os “conteúdos” da vida humana às abstrações da economia científica segue o seu curso.

Nas equações macroeconômicas dos modelos com expectativas racionais, as demandas populares são reduzidas a uma constante – um teto – condenada a minguar no movimento da derivada primeira.

Escrachados como populistas, os irracionais eleitores revelam que se tornou intolerável o massacre de seu cotidiano e de seu destino  pelas tropas de uma “racionalização” que sufoca o projeto civilizado da vida boa e decente.

O dogma da racionalidade não deixa ao perdedor, ao inferiorizado, senão a alternativa de triturar a própria autoestima. A “individualização” do fracasso não permite ao derrotado compartilhar com os outros um destino comum provocado pela desordem do sistema social.

O reconhecimento social é uma preciosa forma de remuneração não monetária. E essa retribuição torna-se cada vez mais escassa quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio a uma eufórica comemoração do sucesso do indivíduo.

A perda da autoestima transfigura-se em ressentimento e daí as explosões de racismo, de xenofobia, de recusa do outro, seja ele quem for.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s