O Brasil e a China

Por Luiz Gonzaga Belluzzo – Da Revista CartaCapital

A investigação sobre o desenvolvimento dos países asiáticos deu origem a uma volumosa bibliografia, cuja estante não pode, nem deve, ser adornada pela etiqueta da oposição Estado x Mercado. Essa etiqueta binária oculta a complexidade das realidades asiáticas. Não pretendo pontificar a respeito de tais realidades, como o fazem os físicos e engenheiros da sociedade. Mas arrisco algumas sugestões.

Julgo dignas de consideração: 1. A natureza e a relevância da intervenção do Estado, particularmente das políticas industriais e de direcionamento do crédito. 2. A importância dos acordos implícitos e das relações de “cooperação” e “reciprocidade” entre o público e o privado. 3. A subordinação das políticas macroeconômicas ao arranjo estrutural comprometido com a incorporação de novos setores “competitivos” à estrutura produtiva. 4. O ajustamento da matriz educacional às exigências do crescimento acelerado e do avanço tecnológico. 5. A forma da inserção internacional.

Nessa “organização capitalista” prevalecem os nexos “cooperativos” e de reciprocidade nas relações Estado-empresas, nas negociações entre os grandes conglomerados e seus fornecedores, na íntima articulação entre os bancos (em sua maioria estatais na China, na Índia, nos primeiros tempos da Coreia) e a grande empresa, no provimento de mão de obra capacitada e, finalmente, na “administração estratégica” do comércio exterior e do investimento estrangeiro.

Até a eclosão da crise financeira no segundo semestre de 1997, a resistência das economias asiáticas aos choques externos deve ser atribuída, em grande parte, à “repressão” financeira e aos controles estritos exercidos sobre os mercados cambiais.

As operações cambiais estavam praticamente restritas à compra e venda de divisas para saldar obrigações nascidas da balança de transações correntes. Os governos exerciam controles rigorosos sobre a conta de capitais. A China resistiu à crise porque conservou os controles sobre os fluxos de capitais e persistia na administração da taxa de câmbio favorável às exportações.

O economista Ajit Singh, em seus trabalhos sobre o desenvolvimento da Ásia, não hesitou em escolher, como fator crucial do sucesso do catching up, a capacidade revelada pelas economias asiáticas de transformar continuamente os créditos em investimentos, os investimentos em lucros (a “poupança” é sobretudo das empresas) e os lucros em investimento, o investimento em ganhos de produtividade durante um longo período, sem que se insinuassem indícios mais sérios de fragilidade financeira.

A isso o economista japonês Michio Morishima chamou de “combinação ótima” entre o máximo de competitividade e o máximo de cooperação e planejamento.

A China replicou à sua moda as experiências do Japão, da Coreia, de Taiwan e de Cingapura e iniciou sua escalada nos mercados mundiais, tornando-se a maior exportadora de manufaturas do planeta, desde o low end dos têxteis, vestuário e brinquedos até o high end da eletrônica de consumo, microprocessadores, bens de capital, robótica e outros componentes de informática e microeletrônica.

Em sua caminhada, a China cuidou dos investimentos em infraestrutura e utilizou as empresas públicas como plataformas destinadas a apoiar a constituição de grandes conglomerados industriais preparados para a batalha da concorrência global.

É impróprio, para não dizer empobrecedor, apontar o dedo para causas singulares do desempenho das economias asiáticas: a “educação”, “a taxa de poupança” ou a “estabilidade macroeconômica”.
Autor de livros indispensáveis para a compreensão da trajetória chinesa, o economista inglês Peter Nolan insiste em ressaltar a construção dos arranjos e articulações entre empresas estatais, bancos públicos e a expansão de um pujante setor privado “competitivo” povoado de pequenas e médias empresas.

Esse sistema de organização empresarial foi, repito, inspirado (não copiado) nas experiências de Japão, Coreia, Taiwan e – pasme o leitor – no empreendimento desenvolvimentista brasileiro que sobreviveu até o fim dos anos 1970.

Por nossas veredas tropicais circularam autoridades, técnicos e burocratas chineses em busca de inspiração para as reformas cautelosas que livraram o Império do Meio das amarras e insuficiências gritantes da “economia de comando”.

Na edição anterior de CartaCapital, o jornalista Carlos Drummond ofereceu uma análise cuidadosa do arranjo estrutural que conduziu o desenvolvimento e a industrialização no Brasil. Hoje, no país de Temer, os sabichões do pedaço se empenham na “reforma” da funilaria do veículo, enquanto se aprimoram na destruição do motor do crescimento.

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