O país da Casa-grande

Por Luiz Gonzaga Belluzzo – Da Revista CartaCapital

Desde a transição democrática de meados dos anos 80, o povo brasileiro contempla, entre perplexo e cada vez mais desencantado, o espetáculo da mudança sem esperança ou, como dizia um crítico de Adorno, “a realização das esperanças do passado”.

Assim os senhores da terra concebem o progresso. As eleições diretas sucumbiram diante do Colégio Eleitoral. A nau de Ulysses encalhou nas praias do transformismo e os náufragos do regime militar saltaram alegremente para bordo.

Na eleição de 1989, o Caçador de Marajás saiu do quase anonimato para ser promovido como mercadoria nova, produzida nas retortas dos marqueteiros e exposta nas vitrines da mídia de resultados, sob os aplausos e a chuva de grana despejada pelo patriciado nativo.

Em 2017, os senhores da casa-grande e seus fâmulos apostam na reconstrução das esperanças do passado: acenam com candidaturas habilitadas a empurrar, outra vez, o País para a modernidade dos marqueteiros.

Nesse barco navegam os cosmopolitas da finança e dos negócios, uma fração majoritária das classes médias – ilustrada, semi-ilustrada e deslustrada –, as velhas oligarquias regionais e a cambada da tripa-forra que quer sempre se locupletar sem esforço.

A democracia dos patrícios, observada de uma perspectiva realista e sombria, revela a enorme capacidade de sobrevivência dos poderes dos donos. Depois do interregno de três mandatos comprometidos com programas de avanço popular, o povo brasileiro assiste ao eterno retorno do mesmo: mudam as máscaras, mas não os rumos, nem sequer os pretextos.

Há de se admirar o requinte dos poderosos em embalar o automatismo psíquico dos cidadãos abandonados aos realejos das mídias.

As almas dos paneleiros vibram as cordas do atraso oligárquico em consonância com a hipermodernidade da barbárie “internética”, que intoxica o ambiente social com a nuvem de ignorâncias.

As baixarias revelam, sobretudo, indigência cultural e desprezo absoluto pelos valores do liberalismo político, o que nos coloca na rabeira do processo civilizador ou, se quiserem, na vanguarda do movimento de retorno à idade da pedra lascada. O Estado Democrático de Direito não “pegou” na Terra de Santa Cruz. Seus princípios jazem inertes nos compêndios.

Entre mortos e afogados flutua impávida a estrutura do poder real. Mandam e desmandam os mesmos grupos de sempre, reforçados agora pela presença dos yuppies cosmopolitas da finança globalizada.

A grande inovação dos tempos, além da internet e do celular, é a porta giratória entre as mesas de operação das instituições financeiras e as burocracias econômicas executoras dos projetos e programas da privataria.

Nesse bloco hegemônico não faltam os serviçais da mídia, infatigáveis em apresentar esses companheiros de jornada como portadores de um saber superior, o único capaz de assegurar, aos olhos dos mercados financeiros, a credibilidade da política econômica.

Mais que isso, as normas do mercado passaram a ditar as regras da vida política. No Brasil de hoje, essa lógica fatal vem contaminando as instâncias decisivas do poder estatal. O sistema partidário e o financiamento das campanhas eleitorais parecem engendrados com o propósito de transformar o Congresso num mercado de balcão, onde os gritos de “compro” e “vendo” tornam ridícula a hipocrisia dos discursos moralistas dos plenários.

Para não colocar em risco o poder dos donos, Temer e seu entourage sacaram do coldre a pistola armada com a bala de prata do parlamentarismo.

Com mais esse truque de violação da soberania popular, imaginam criar as condições políticas para amainar as angústias da sociedade e embalar a economia. Entrevada na cadeira de rodas do desajuste fiscal e imobilizada na camisa de 11 varas das reformas anacrônicas, a economia brasileira avança indômita para o passado.

Temer, o Ilegítimo, deveria ter à cabeceira A Odisseia. Recomenda-se reler diariamente, especialmente a passagem em que Ulisses, advertido por Circe, tapa os ouvidos da tripulação e se amarra ao mastro do navio para resistir ao canto das sereias.

Nos tempos do regressismo nacional, elas vão continuar entoando o canto mortal que celebra as excelências da desigualdade gestada nos salões fétidos da casa-grande.

Não se deve supor que os sucessivos desastres e malfeitorias institucionais produzidos pelos desmandos do impeachment sejam capazes de comover as lendárias criaturas. Como as sereias de Homero, elas anunciam maravilhas e promovem desgraças. A palavra de ordem para os navegantes da periferia é avançar nas “reformas” e, se necessário, espalhar o terror entre os que resistem.

No livro A Dialética do Esclarecimento, escrito em parceria com Horkheimer, Adorno palmilha os caminhos que levaram o projeto das Luzes a se precipitar nos braços do mito. A recaída do esclarecimento na mitologia, diz ele, não deve ser buscada tanto nas ideologias nacionalistas, pagãs e em outras mitologias modernas, mas no próprio esclarecimento paralisado pelo temor da verdade.

“Paralisada pelo temor da verdade”, a equipe econômica dos sonhos do mercado permanece espremida entre a mitologia da austeridade expansionista e os manuais de instrução das arrumadeiras de casa ou de alfaiates especializados em ajustar fatiotas.

Fâmulos de abstrações tão ridículas quanto perniciosas para a massa desempregada, as personagens oníricas entregam-se à faina de correr atrás dos maus resultados com promessas destrambelhadas.

Com tais expedientes ridículos, os sábios da finança tratam de ocultar a opressão imposta às mulheres e homens que se levantam na madrugada para trabalhar nas cidades e nos campos do Brasil-sil-sil. Enquanto perseguem a desqualificação mesquinha e indigente dos critérios da política democrática, apresentam como inexorável a agenda dos mercados.

O arbítrio, o favorecimento, o segredo, a obscuridade e o nepotismo eram os demônios que os valores da República restaurada pretendiam exorcizar. Pois os curupiras da Pátria Amada estão aí, livres e folgazões, gargalhando sobre as nossas incríveis esperanças.

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