Desigualdades de gênero permanecem nos lares e nas escolas brasileiras, alerta pedagoga

As desigualdades de gênero continuam existindo nos lares, no ambiente escolar e na sociedade brasileira como um todo, tendo como uma de suas consequências a violência contra as mulheres, lembrou Malvina Tuttman, pedagoga, ex-reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atual membro do Conselho Nacional de Educação.

As declarações foram feitas durante evento no Rio de Janeiro para lembrar os 13 anos de parceria entre o Instituto Interamericano de Fomento à Educação, Cultura e Ciência (IFEC) e o Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil (UNIC Rio) e no qual Malvina foi homenageada.

A palestra sobre igualdade de gênero ocorreu diante de uma plateia de representantes de setor público e privado, sociedade civil e academia.

“Esta é uma situação que acontece e é muitas vezes reforçada nos nossos lares”, disse Malvina, dando exemplo das diferenças no tratamento de meninos e meninas no que se refere às atividades domésticas.

“Talvez isso tenha mudado um pouco, mas ainda existe. Quando temos um filho e uma filha, como é o meu caso. Não faço isso agora, mas já fiz. Chamava a menina para recolher a louça e lavá-la, enquanto o filho ficava na sala vendo televisão”, disse Malvina, lembrando que a escola é outro ambiente em que essas desigualdades são perpetuadas.

Para a pedagoga, tal prática reforça a falsa ideia de que o homem é superior à mulher. “Reforça a ideia de que o homem pode dizer para a mulher: ‘como não tem o meu sabonete preferido?’, ‘como minha toalha não está arrumada na cama?’. Dá uma ideia de que o homem manda e a mulher é subserviente”, afirmou.

As consequências dessa cultura, salientou, são enormes violências — tanto físicas, como simbólicas. “Surgem os maus-tratos, as agressões contra as mulheres. Justamente porque alguns homens entendem que têm esse poder sobre elas”, salientou.

Malvina lembrou que as desigualdades de direitos entre homens e mulheres permanecem 80 anos depois de surgirem os primeiros movimentos de mulheres sufragistas no Brasil, que demoraram uma década para conquistar o direito ao voto.

“A primeira organização foi em 1922, justamente porque as mulheres não votavam, a primeira reivindicação que deu a oportunidade de mulheres, escondidas, irem a reuniões para discutir essa questão. Doze anos depois, em 1934, as mulheres pela primeira vez no nosso país conquistaram o direito de votar na primeira Constituinte da nossa história e puderam se candidatar também”.

No entanto, oito décadas depois, ainda é verificada uma baixa participação das mulheres na política partidária, disse Malvina, lembrando também a baixa participação feminina nos cargos de tomada de decisão. No Conselho Nacional de Educação, do qual a pedagoga faz parte, há apenas quatro mulheres para o órgão de 24 membros.

“Quantas educadoras importantes existem no Brasil e que poderiam ocupar um lugar nesse Conselho? Não porque são mulheres, mas porque são muito competentes”, salientou.

O evento também teve a participação de Maurizio Giuliano, diretor do UNIC Rio, que enfatizou a importância da igualdade de gênero para a conquista da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, aprovada pela comunidade internacional em 2015. O tema é abordado no ODS número 5, que trata de “alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas” nos próximos 15 anos.

“Sem igualdade de gênero não pode haver desenvolvimento, nem esse desenvolvimento pode ser sustentável”, disse Giuliano durante a abertura do encontro. “A igualdade de gênero é vital para a América Latina, para o pleno exercício dos direitos humanos e para o desenvolvimento socioeconômico. Acreditamos que nas últimas décadas a situação das mulheres avançou na região, sobretudo no que se refere aos níveis de educação formal, mas o caminho ainda é longo”, disse.

Para o presidente-chanceler do IFEC, Raymundo Nery Stelling Júnior, é importante resgatar a dimensão humana no combate às desigualdades de gênero.

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