Este entrevero dá samba

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Alberto Goldman e João Doria, os litigantes do momento, têm o singular poder de estimular a minha memória. Primeiros anos 60, conheci Doria pai, superficialmente, mas o bastante para dizer-lhe da sua inescapável ascendência genovesa.

Da República Marítima que dividiu com Veneza a dominação do Mediterrâneo, mas que, ao contrário da Serenissima, nunca foi conquistada por forças estrangeiras, os Doria foram senhores por largo tempo.

Um Doria, em tempos bastante idos, veio à terra tropical, assim como um Adorno, um Cavalcanti, um Acciaiuli, que no Brasil virou Acioli. Toda esta digressão se deu para informar ao cabo que o pai do prefeito de São Paulo tinha fama de esquerdista e assim se declarava.

Alberto Goldman conheci durante uma recepção que reuniu na casa de algum graúdo a nata dos políticos de oposição à ditadura no fim dos anos 70. Eu dirigia a redação de IstoÉ, e lá fui às alturas do Morumbi, onde a mansão neoclássica de Scarlet O’Hara convive com casarões normandos à espera da neve, sedes de haciendas mexicanas com discos voadores.

Presentes desde o doutor Ulysses, por quem tinha grande simpatia e respeito, até Tancredo Neves, desde Mario Covas até André Franco Montoro. Quem me apresentou a Alberto Goldman, estrela nascente em odor, pasmem, de comunismo, foi Roberto Gusmão, que ainda seria secretário de Montoro governador e, como parte da herança de Tancredo, ministro de Sarney.

Conclusão. Enquanto João Doria tem uma origem avermelhada, o tucanato já foi a resistência à ditadura, e ali muitos se diziam de esquerda até o último alento. A exceção mais definida e importante foi a do doutor Ulysses, que se contentava, sem bravatas da moda, em ser um democrata de centro. O tempora, o mores, quanta água, e quão volumosa, correu debaixo desta ponte.

João Doria não passa de um marqueteiro engomado, cabelos duros de brilhantina a se parecerem com asa de barata. Ele gostaria de ser prefeito de Paris. Entre suas façanhas, organizar festanças para ricos e políticos ambiciosos, dados a folguedos ridículos, e destruir uma honesta pedra colocada em modesto logradouro público chamado Praça Claudio Abramo para colocar em seu lugar uma obra da esposa, a se apresentar como escultora.

De seu lado, o tucanato cuidou de se transformar no clube recreativo da reação mais abjeta, com o apoio da mídia nativa, porta-voz da casa-grande, capaz somente, na hora eleitoral, de influenciar a minoria privilegiada.

Reconheçamos o aspecto positivo do entrevero entre Doria e Goldman, com o possível resultado de liquidar com a candidatura presidencial daquele, enquanto qualquer outra do PSDB está destinada ao fracasso. Por falar em candidaturas, impressiona-me sobremaneira a preocupação da revista Veja com a ameaça Bolsonaro.

Não ouso ler a publicação que fundei e dirigi faz quase 50 anos, permito-me, porém, um palpite: a candidatura do deputado só teria sentido se Lula estivesse no páreo. Soa improvável, contudo, a derrota da Inquisição do Santo Ofício de Curitiba.

Bolsonaro, nesta perspectiva, é candidato a ser corretamente dimensionado. Não se negue à figura ímpeto fascistoide, nem por isso o País corre o risco de um futuro fascista. Bolsonaro não é Mussolini e a nossa pequena burguesia é muito mais atrasada, e numericamente menor, do que a italiana de 1922, primeira responsável pela criação do Duce.

Nas circunstâncias, o Brasil tem o destino da sua crescente insignificância, terra de ninguém entregue à sua ignorância e à predação dos senhores e dos seus jagunços.

Não há como conciliar a ideia de uma próxima eleição presidencial com a situação que vivemos. Pergunta óbvia: e se for impossível evitar a vitória do candidato de Lula, que será capaz de fazer quem está hoje no poder, e até agora agiu a seu bel-prazer?

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