Lula vs. casa-grande

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Ao constatar a dificuldade dos mafiosos no poder de encontrar um candidato potável para as eleições de 2018, permito-me sugerir o nome de Mister Músculo na cozinha, no banheiro, limpa tudo onde quiserem. Parece-me muito mais convincente do que Geraldo Alckmin, João Doria, Luciano Huck et caterva.

Por acaso, ao zapear diante do vídeo, tropecei em Mister Músculo e imediatamente exclamei, para deleite dos meus botões: “Eis o cara!” Trata-se de um rapaz parrudo e determinado, e entendi que nele votariam todas as donas de casa do Brasil. Vantagem importante, convenhamos.

Tenho meditado a respeito do tormento a assolar os golpistas na busca do candidato ideal, ou seja, habilitado a dar continuidade ao projeto de demolição do Brasil. Em relação ao último cogitado, Luciano Huck, consegui perceber nele uma certa semelhança com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy.

A se levar em conta a ideia acalentada por Michel Temer e Gilmar Mendes de transformar nosso presidencialismo velho de guerra em semipresidencialismo, ou semiparlamentarismo, à francesa (se um, ou outro, ainda não está claro), a semelhança com Sarkozy talvez representasse a vantagem do apresentador global.

Ouso, entretanto, registrar que o presidente ilegítimo e o nosso Darth Vader navegam águas bastante turvas, e ali, no comando, revelam sua lacuna, de certa maneira espantosa: não sabem o que é o presidencialismo à francesa. A ignorância brasileira é mundialmente reconhecida, mas não haveria de ser esperada de figuras tão representativas.

A dupla dinâmica quer um presidente com funções idênticas às da rainha do Reino Unido. O presidencialismo francês é bem diferente. Nasceu com Charles de Gaulle, aquele que disse que “o Brasil não é um país sério”, herói da guerra e figura imponente, foi quase um rei, mas, no sentido de Luís XIV, que por sua vez dizia: “O Estado sou eu”.

De todo modo, quem manda hoje na França é o senhor Macron, assim como mandava, e muito mal, o senhor Hollande, e antes o senhor fisicamente semelhante a Luciano Huck, e assim por diante, na marcha à ré passado adentro. O que os estrategistas das quadrilhas pretendem é o presidencialismo à brasileira para confirmar inexoravelmente que De Gaulle estava certo.

Nesta moldura, de ridícula patetice sem deixar de ser trágica para o destino do País, sérias são as mais recentes falas de Lula, assunto da reportagem de capa desta edição. O ex-presidente define claramente os seus inimigos: o mercado e a Globo. Esta tomada de posição tem implicações importantes, em primeiro lugar o reconhecimento de que a conciliação, na qual ele já acreditou, é impossível.

CartaCapital sempre sustentou que a conciliação é a das elites, acontece quando os inquilinos da casa-grande se desentendem e, logo, a salvaguardar os interesses comuns, fazem as pazes. Quimera é imaginar o acordo entre Capital e Trablho, entre ricos e pobres, entre casa-grande e senzala.

Lula manifesta-se como candidato. Não sei, porém, se acredita na possibilidade de competir,  já que o objetivo principal do golpe de 2016 foi alijá-lo do pleito. Duvido que queira iludir-se. Diz apenas que, se eleito fosse, no combate ao monstruoso desequilíbrio social iria mais longe, muito mais longe, do que nos seus dois mandatos presidenciais.

As palavras de Lula me alegram e me entristecem ao mesmo tempo. Ao identificar seus inimigos, abre fogo contra a casa-grande e com isso me agrada além da conta. Sobra a tristeza de percebê-lo como o presidente capaz de recolocar o Brasil nos trilhos, por ora sem esperança de vê-lo em ação.

Lula me diz, entretanto, que é preciso sonhar, e a insistência dele no apelo onírico me induz a alguma desconfiança. Será que o ex-presidente tem alguma carta na manga?

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