Um manifesto “luterano” para a economia

Por Luiz Gonzaga Belluzzo – Da revista CartaCapital

Na celebração dos 500 anos do repto lançado por Martinho Lutero à hierarquia da Igreja Católica, o New Weather Institute e o movimento Rethinking Economics, com o apoio de um largo espectro de economistas, acadêmicos e cidadãos, lançam um desafio ao ensino de economia baseada na visão dominante e convocam a mobilização por uma Nova Reforma consubstanciada nas 33 Teses para a Reforma da Economia.

O lançamento das Teses foi realizado no University College London em associação com a The Economists Society of University College London e o Institute for Innovation and Public Purpose.

Participaram do lançamento, entre outros, Victoria Chick (UCL), David King (assessor científico do governo britânico), Andrew Simms (University of Sussex) e Kate Raworth (Oxford University).

Lei a seguir o manifesto:

33 teses para uma reforma da economia

O mundo enfrenta pobreza, desigualdade, crise ecológica e instabilidade financeira.

Tememos que a economia faça muito menos do que poderia para oferecer ideias que ajudariam a solucionar esses problemas. Isto ocorre por três motivos: 

Primeiro, na economia se desenvolveu um monopólio intelectual insalubre. A perspectiva neoclássica domina avassaladoramente o ensino, a pesquisa, os conselhos de políticas e o debate público. Muitas outras perspectivas que poderiam oferecer ideias valiosas são marginalizadas e excluídas. Isto não se refere a uma teoria ser melhor que outra, mas à ideia de que o progresso científico só avança com um debate. Na economia, esse debate morreu.

Segundo, enquanto a economia neoclássica fez uma contribuição histórica e ainda é útil, há amplas oportunidades de melhora, discussão e aprendizado a partir de outras disciplinas e perspectivas.

Terceiro, a economia da corrente dominante parece ter se tornado incapaz de autocorreção, desenvolvendo-se mais como uma religião do que como uma ciência. Com demasiada frequência, quando teorias e evidências entraram em conflito, as teorias foram mantidas e as evidências, descartadas. 

Propomos estas teses como um desafio ao monopólio intelectual insalubre da economia da corrente dominante. Estes são exemplos das falhas nas teorias da corrente dominante, das ideias que as perspectivas alternativas têm a oferecer e das maneiras como uma abordagem mais pluralista pode ajudar a economia a se tornar ao mesmo tempo mais eficaz e mais democrática. Esta é a afirmação de que uma economia melhor é possível, e um convite ao debate.

O OBJETIVO DA ECONOMIA

1. O objetivo da economia deve ser decidido pela sociedade. Nenhuma meta econômica pode ser separada da política. Os indicadores de sucesso representam opções políticas. 

2. A distribuição da riqueza e da renda são fundamentais para a realidade econômica e também o devem ser na teoria econômica. 

3. A economia não é isenta de valor, e os economistas devem ser transparentes sobre os julgamentos de valor que fazem. Isto se aplica especialmente àqueles julgamentos de valor que podem não ser visíveis ao olhar destreinado. 

4. A política não “nivela” o campo de jogo, mas o inclina em uma direção. Precisamos de uma discussão mais explícita de que tipo de economia queremos, e como chegar lá. 

O MUNDO NATURAL

5. A natureza da economia é que ela é um subconjunto da natureza, e das sociedades em que ela surge. Ela não existe como identidade independente. As instituições sociais e os sistemas ecológicos são, portanto, centrais, e não externos, ao seu funcionamento.

6. A economia não pode sobreviver ou prosperar sem insumos do mundo natural, ou sem os muitos sistemas de suporte à vida que o mundo natural oferece. Ela depende de um contínuo fluxo de energia e matéria, e opera em uma biosfera de equilíbrio delicado. Uma teoria econômica que trate o mundo natural como externo a seu modelo não pode compreender plenamente como a degradação do mundo natural pode prejudicar suas próprias perspectivas.

7. A economia deve reconhecer que a disponibilidade de energia e recursos não renováveis não é infinita, e o uso desses bens para acessar a energia que eles contêm modifica os equilíbrios de energia agregada do planeta, gerando consequências como catástrofes climáticas.

8. A retroalimentação entre a economia e a ecologia não pode ser ignorada. Ignorá-la até hoje levou a uma economia global que opera muito fora dos limites viáveis da ecologia que a contém, no entanto exige maior crescimento para funcionar. Mas a economia deve se basear nas restrições objetivas da ecologia planetária.

 INSTITUIÇÕES E MERCADOS

9. Todos os mercados são criados e moldados por leis, costumes e cultura, e são influenciados pelo que os governos fazem e pelo que eles não fazem.

10. Os mercados resultam das interações entre diferentes tipos de público e organizações privadas (assim como as do setor voluntário e da sociedade civil). Mais estudos deveriam ser feitos sobre como essas organizações são organizadas de fato, e como as interrelações entre elas funcionam e poderiam funcionar.

11. Os mercados também são mais complexos e menos previsíveis do que pode estar implícito em simples relações de oferta e demanda. A economia precisa de uma compreensão mais profunda sobre como os mercados se comportam, e poderia aprender com a ciência de sistemas complexos, como é usada na física, na biologia e na computação. 

12. As instituições moldam os mercados e influenciam o comportamento de todos os agentes econômicos. A economia deve, portanto, considerar as instituições como uma parte central de seu modelo.

13. Já que economias diferentes têm instituições diferentes, uma política que funcione bem em uma economia pode funcionar mal em outra. Por esse motivo, dentre muitos outros, é improvável que seja útil propor um conjunto universalmente aplicável de políticas econômicas baseadas somente na teoria econômica abstrata.

MÃO DE OBRA E CAPITAL

14. Salários, lucros e retornos sobre ativos podem ser atribuídos a um amplo leque de fatores, incluindo o poder relativo de trabalhadores, empresas e proprietários de ativos, não apenas a suas contribuições relativas à produção. A economia precisa de uma compreensão mais ampla desses fatores, de modo a melhor informar as opções que afetam a parcela de renda recebida pelos diferentes grupos na sociedade. 

A NATUREZA DA TOMADA DE DECISÕES

15. Erro, preconceito, reconhecimento de padrões, aprendizado, interação social e contexto são influências importantes no comportamento que não são reconhecidas pela teoria econômica. A economia da corrente dominante precisa, portanto, de uma compreensão mais ampla do comportamento humano, e pode aprender com a sociologia, a psicologia, a filosofia e outras escolas de pensamento. 

16. Os indivíduos não são perfeitos, e a tomada de decisões econômicas “perfeitamente racional” não é possível. Qualquer decisão econômica que tenha algo a ver com o futuro envolve um grau de incerteza inquantificável, e portanto exige julgamento. A teoria e prática econômica da corrente dominante devem reconhecer o papel da incerteza.

DESIGUALDADE 

17. Em uma economia de mercado, os indivíduos com as mesmas capacidades, preferências e dotes não tendem a acabar com o mesmo nível de riqueza, sujeita apenas a certa variação aleatória. Os efeitos de pequenas diferenças de sorte ou de circunstâncias podem conduzir a resultados enormemente diferentes para cidadãos semelhantes.

18. Os mercados muitas vezes mostram uma tendência a aumentar a desigualdade. Por sua vez, as sociedades desiguais se saem pior em uma série de indicadores de bem estar social. A teoria econômica da corrente dominante poderia fazer muito mais para compreender como e por que isso acontece, e como pode ser evitado. 

19. A proposição de que conforme um país enriquece a desigualdade deve inevitavelmente aumentar antes de diminuir é falsa, como foi demonstrado. Qualquer combinação de crescimento do PIB e desigualdade é possível.

CRESCIMENTO DO PIB, INOVAÇÃO E DÍVIDA 

20. O crescimento é uma opção tão política quanto econômica. Se escolhermos buscar o “crescimento”, as perguntas (“crescimento do quê, por quê, para quem, por quanto tempo e o quanto é suficiente?”) devem ser respondidas de forma explícita ou implícita.

21. A inovação não é externa à economia. É uma parte inerente da atividade econômica. Nossa compreensão do crescimento do PIB pode ser melhorada se virmos a inovação como parte de um ecossistema de desequilíbrio, em constante evolução, moldado pelo desígnio dos mercados e pelas interações entre todos os agentes no interior deles.

22. A inovação tem um ritmo e uma direção. Uma discussão da “direção” da inovação exige uma compreensão do “objetivo” na elaboração de políticas.

23. A dívida privada também influencia profundamente o ritmo de crescimento econômico, no entanto é excluída da teoria econômica. A geração de dívida aumenta a demanda financiada por dívida e afeta os mercados de bens e de ativos. As finanças e a economia não podem ser separadas. 

DINHEIRO, BANCOS E CRISES

24. A maior parte do dinheiro novo que circula na economia é criada pelos bancos comerciais, a cada vez que concedem um novo empréstimo.

25. O modo como o dinheiro é criado afeta a distribuição da riqueza na sociedade. Consequentemente, o método de geração de dinheiro deveria ser entendido como uma questão política, e não meramente técnica.

26. Como os bancos geram dinheiro e dívida, eles são agentes importantes na economia, e deveriam ser incluídos nos modelos macroeconômicos. Os modelos econômicos que não incluem os bancos não serão capazes de prever as crises bancárias.

27. A economia precisa de uma melhor compreensão de como a instabilidade e as crises podem ser criadas internamente nos mercados, em vez de tratá-las como “choques” que afetam os mercados a partir de fora. 

28. A financeirização tem duas dimensões: finanças em curto prazo e especulativas, e uma economia real financeirizadas. Os dois problemas devem ser estudados juntos.

O ENSINO DE ECONOMIA

29. Uma boa educação em economia deve oferecer uma pluralidade de abordagens teóricas aos estudantes. Isto deve incluir não apenas a história e a filosofia do pensamento econômico, mas também um amplo leque de perspectivas atuais, como institucional, austríaca, marxista, pós-keynesiana, feminista, ecológica e complexidade.

30. A economia em si não deve ser um monopólio. Cursos interdisciplinares são chaves para a compreensão das realidades econômicas das crises financeiras, pobreza e mudança climática. Política, sociologia, psicologia e ciências ambientais devem, portanto, ser integradas ao currículo, sem ser tratadas como acréscimos inferiores à teoria econômica existente.

31. A economia não deve ser ensinada como um estudo de valor neutro de modelos e indivíduos. Os economistas devem ser versados em ética e política, assim como capazes de se envolver de maneira significativa com o público. 

32. Um enfoque predominante em estatísticas e modelos quantitativos pode deixar os economistas cegos para outras abordagens metodológicas, incluindo pesquisa qualitativa, entrevistas, trabalho em campo e argumentação teórica. 

33. Acima de tudo, a economia deve fazer mais para incentivar o pensamento crítico, e não simplesmente recompensar a memorização de teorias e a implementação de modelos. Os estudantes devem ser incentivados a comparar, contrastar e combinar teorias, e aplicá-las criticamente a estudos de caso em profundidade do mundo real.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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