A injustiça

Por Mino Carta – Da Revista Carta Capital

Às vésperas do julgamento de Lula pela segunda instância gaúcha, o PT se contradiz pela boca da sua presidente, Glesi Hoffmann. De um lado, promete mortos na calçada caso Lula acabe na cadeia. Do outro, apressa-se em tranquilizar Wall Street ao descrever o ex-presidente como um conciliador que jamais poria em xeque a estabilidade financeira do País se voltasse à Presidência.

Não há quem duvide das qualidades de Lula como negociador, praticadas com total êxito desde os seus tempos de líder dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, sem deixar, contudo, de comandar greves fluviais destinadas a se tornar movimentos de resistência à ditadura.

A qual, ao cabo, o enquadrou na Lei de Segurança Nacional. Tal é a natureza do nosso único líder de dimensão federal, quando é preciso sabe erguer o tom.

Assim se deu menos de um mês atrás, ao apontar no mercado e na Globo seus irredutíveis inimigos e anunciar uma nova Carta aos Brasileiros destinada a explicar que a distribuição da renda não basta, indispensável a distribuição da riqueza, ou, por outra, taxar ricos e super-ricos, beneficiários do golpe de 2016. Como se vê, neste ponto reina impávida uma contradição com a fala de dona Gleisi na entrevista dada nos escritórios brasilienses da Bloomberg no começo da semana.

A presidente petista recorreu à comparação com os oito anos de mandato de Lula, “em que todos ganharam, inclusive o setor financeiro”.

Dona Gleisi esquece que a primeira Carta aos Brasileiros visava exatamente a conciliação pelos caminhos neoliberais, que o mesmo Meirelles hoje a impor as reformas trabalhistas lá estava para tranquilidade do mercado e de Wall Street, embora Lula se dispusesse a uma importante abertura social e a uma política internacional independente dos interesses de Washington.

Parece, depois das mais recentes declarações do ex-presidente, que a segunda Carta seguirá rumo oposto àquele da primeira.

Quanto aos mortos na calçada, “Gleisi escorregou numa casca de banana”, diz um observador atilado. Na manhã da terça 16, O Globo titulou seu editorial: “O PT é o responsável pela segurança em Porto Alegre”. E denuncia “o descaso do lulopetismo com as instituições que atuam no combate à corrupção”.

Faltou esclarecer que as instituições em questão só atiram na direção dos casos que envolvem, ou teriam envolvido, o “lulopetismo”. De todo modo, na nota da mesma terça, dona Gleisi voltou a frequentar a contradição, ao afirmar que a próxima Carta aos Brasileiros tem o endereço do povo e não o do mercado.

Não há como ignorar uma certa confusão a se alastrar nas hostes “lulopetistas”. Uma frase pronunciada por José Dirceu em novembro passado, ao se referir aos golpistas, soletrou: “Eles ainda não entenderam nada, nós é que somos o centro”. Pergunto aos meus perplexos botões: e onde fica a esquerda? Retrucam prontamente para lembrar que eu já duvidei da existência de uma esquerda brasileira.

Replico não hesitar em definir de esquerda os movimentos dos sem-teto e dos sem-terra, e as posições de lideranças políticas e intelectuais esparsas. Sim, sim, murmuram os botões, mas o PT no poder portou-se como os demais.

Quanto ao próprio Lula, ele sabe que uma coisa é fazer campanha e outra é governar, e este é um raciocínio de fácil entendimento. Conta-se em Brasília um episódio ocorrido durante o Congresso do PT, em junho de 2017, ao qual compareceu uma emissária de Jean-Luc Mélanchon, o líder esquerdista francês.

E de Lula ela teria ouvido a seguinte frase: “Eleição e governo é igual a noivado e casamento, você promete, depois administra”.

Ou seja, é o confronto com a realidade que orienta marchas e contramarchas.

Se a próxima Carta se dirige ao povo em vez de buscar o mercado, como se deu com o texto de autoria de Antonio Palocci, o trotskista convertido ao neoliberalismo, divulgado antes das eleições de 2002, isto haveria de provar que a rota tomou outro rumo.

A esta altura, diante do golpe perpetrado pela aliança entre os Três Poderes da República (e Montesquieu que se moa), sustentado pela propaganda midiática (Goebbels invejaria) e por setores da PF, Lula, erguido sobre o pedestal da larga vantagem nas pesquisas, para não dizer desmesurada, entende ser preciso “pôr medo” na casa-grande.

Como afirma um eminente petista próximo do ex-presidente, “agora somos condenados a radicalizar”. Dona Gleisi deveria dar-lhe ouvidos.

Falha, porém, a campanha petista concentrada em torno da pergunta ingênua “cadê as provas?”, endereçada aos juízes de Curitiba e Porto Alegre. De súbito, me vem à mente São Roberto Belarmino, o cardeal inquisidor santificado em 1923 por Pio XI. Foi ele quem mandou à fogueira Giordano Bruno, o pensador revolucionário, em fevereiro de 1600, e acusou de heresia Galileu Galilei por demonstrar que a Terra não é plana e gira em volta do Sol.

Caberia a Bruno, ou a Galileu, perguntar: cadê as provas? O tribunal da Inquisição sob o mando de Belarmino, como os de Curitiba e Porto Alegre, escolhe de antemão o herege e finalmente o condena sem a mais pálida sombra de provas. Desta forma funciona automaticamente a Justiça dos inquisidores da Contrarreforma e neste nosso infeliz país. Já defendi a fundação de um forte e determinado partido de esquerda, indispensável ao progresso e ao desenvolvimento, capaz de conscientizar o povo.Há tempo enxergo, no entanto, a resignação da maioria espezinhada, e tanto mais hoje, ao observar a normalidade que trafega por ruas e praças, como se não estivesse em curso a demolição do País, a submissão aos interesses dos EUA, agora governados por um fanático do Apocalipse, a rendição desbragada ao neoliberalismo, a glorificação de ricos e super-ricos, a alegria perene dos rentistas.

A campanha pró-Lula deveria ser capaz de mostrar como e por que a condenação do ex-presidente também condena o Brasil. E mais uma vez recorro à sabedoria de Eugênio Aragão, quando fala em “saída negociada” a bem de “uma transição suave”, enquanto avisa que a repressão feroz a qualquer manifestação de inconformismo a partir do entendimento da trágica realidade da reforma trabalhista em todas as suas facetas vai desaguar em convulsão social. E aí, sim, teríamos os mortos na calçada.

Lula, o negociador esperto, seria tanto o melhor mediador da saída negociada quanto o líder eventualmente habilitado a conter a ira popular. Tenho a repentina sensação que Antonio Delfim Netto concorda comigo. Está além de evidente a aposta dos quadrilheiros, assaltantes do poder, na inércia da maioria, no alheamento, no medo. Desta vez, neste nebuloso 2018, talvez se enganem.

Lula não irá a Porto Alegre, mas na noite do dia 24 comparecerá à concentração marcada na Avenida Paulista, em frente ao Masp, a preceder a reunião da Executiva Nacional do PT, dia 25, com a presença de cinco governadores e das bancadas do Senado e da Câmara.

Sairá dali a confirmação da candidatura do fundador do partido à Presidência da República, na expectativa de que os oito recursos à sentença do TRF4 apresentados pela defesa do ex-presidente estiquem a demanda judicial além do pleito de outubro.

Faltam até lá cerca de nove meses de meteorologia incerta, sujeita a chuvas e trovoadas, às exceções dos golpistas, às prepotências e arrogância da casa-grande, às falsidades da mídia, que fala de fake news como se não fosse ela mesma campeã mundial na matéria.

O decorrer do ano, no bem e no mal, abrirá novas perspectivas, neste momento só expostas ao palpite. Por exemplo: os recursos serão julgados até a véspera eleitoral, na iminência do pleito.

No assalto ao poder, entre o governo de um presidente ilegítimo e corrupto e um Parlamento dominado pelos enganadores do povo, avulta a primazia fatal da (in)justiça politizada, encabeçada por uma Suprema Corte de fancaria.

Não há similar no mundo democrático e civilizado, onde em defesa da lei estas Cortes são soberanas. Tudo quanto nos aflige hoje, a situação de descalabro político, econômico, social e moral, decorre do clamoroso descumprimento das suas funções por parte da (in)justiça à brasileira.

Fosse outro o nosso Supremo, não ocorreria o impeachment de Dilma Rousseff, e todas as demais exceções cometidas pelos golpistas. Impunemente, pois a Constituição foi atirada ao lixo. O que vai aqui não é simplesmente a opinião de CartaCapital, é também a verdade factual de um Brasil à deriva.

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