O país encarcerado

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Fuao evento contra a condenação de Lula, realizado no Tucarena, um dos dois teatros da PUC paulistana, e me agradou muito ouvir a fala de Geoffrey Robertson, defensor de Lula na Comissão de Direitos Humanos da ONU, elegante cavalheiro saído de um filme inglês, embora ele tenha dito, com sotaque de Oxford, o mesmo que Luigi Ferrajoli, outro jurista de fama mundial, escreveu paraCartaCapital. Ferrajoli e Robertson concordam: a Justiça no Brasil não existe.

Ouvi também a composta intervenção de Cristiano Zanin, que expôs detalhes da farsa de Porto Alegre, e em seguida aquela da esposa do advogado, Valeska, parceira do marido na defesa de Lula, a qual se referiu ao papel desempenhado ao longo do processo pela mídia nativa. Quando ela disse pela terceira vez que parte da imprensa se dedicara à demonização do ex-presidente, não me contive.

Sentado na plateia ergui o braço direito, indicador em riste, e disse, de forma audível em Pindamonhangaba, que não era uma parcela da mídia impressa, era a totalidade, com a única exceção de CartaCapital. Ganhei um demorado aplauso da plateia.

Apresso-me agora a acrescentar entre os resistentes os blogueiros desassombrados e excelentes jornalistas, conquanto sua escrita não saia das rotativas. A doutora falava de imprensa e talvez ela não saiba da diferença entre imprensa e mídia e não leia CartaCapital. O evento foi transmitido pela internet e, ao registrar o enterro do Estado Democrático de Direito, presta um serviço importante no propósito de despertar consciências.

Como se deu com as manifestações que em Porto Alegre precederam o julgamento nos dias 22 e 23, esta organizada pelo chanceler de Lula, Celso Amorim, a garantir um dos mais notáveis méritos do governo petista, a política externa independente, alheia aos interesses de Washington.

Vale lembrar que o secretário de Estado dos EUA prepara-se a visitar a América Latina, mas não incluiu o Brasil no seu roteiro, que começa no México e termina na Argentina. Com a pontual contribuição de Sergio Moro e Deltan Dallagnol e de outros educados em terra estadunidense, o Brasil se oferece a Tio Sam, mas até ele quer distância. Nunca o País foi tão insignificante no plano internacional, como se viu recentemente em Davos, em contraposição aos tempos em que Lula foi protagonista da ribalta mundial, conforme Robertson lembrou na noite do Tucarena.

Grandes jornais estrangeiros criticam asperamente a condenação do ex-presidente, que outrora foi estrela nas suas páginas. Já a mídia nativa, aliada do Judiciário na dianteira da operação golpista, cumpre impávida sua missão de inventar e mentir. Inútil revisitar o passado para evocar a oportunidade perdida pelos governos petistas para combater o monopólio e o oligopólio midiáticos e criar um saudável anteparo à desinformação.

O resultado é doloroso: o povo estaca diante do vídeo global e nutre-se de telenovelas que apresentam um Brasil de ficção, a chamada classe média amplia o leque com o Jornal Nacional e a leitura do papel impresso. A imbecilização geral foi muito bem-sucedida, com a forte probabilidade de que comece pelas próprias redações.

A demolição do Brasil associa-se àquela dos neurônios. É como se vivêssemos um momento de prematura demência senil, a impedir quase sempre o apelo à razão. Fosse este um país civilizado e de tradição democrática, a explosão da revolta popular seria inevitável, sem contar que os trabalhadores viveriam em greve. O que habita a cabeça do brasileiro que adquiriu alguma consciência da cidadania, nutrido pelo alimento midiático?

Ricos e super-ricos cuidam incessantemente de multiplicar sua fortuna por todos os meios, inclusive ilícitos. Os do time aspirante empenham-se para a sua ascensão representada pelo carro novo, pela exibição das grifes e o estojo de couro cru para levar ao restaurante vinhos de milhares de reais, enquanto gostam mesmo de pizza com guaraná. A maioria, até os remediados, só pensa em dinheiro e poucos dão atenção ao destino do Brasil, só cogitam do seu.

Entre eles, muitos cultivam preconceitos de diversos gêneros, de ódio de classe a homofobia. Na categoria figuram os crentes de que bastava impedir Dilma para ser feliz e agora de que afastar de vez Lula da disputa eleitoral é presente do céu. O resto, que privilegiados chamam de povão, vegeta em um limbo atroz sem noção das condições a que a casa-grande o condenou.

O golpe destrói o eventual resquício de Estado Democrático de Direito e em lugar das eleições presidenciais organiza uma farsa. Pergunto, porém, aos meus desolados botões quantos brasileiros se dão conta do tamanho da injustiça? Quantos, até mesmo na noite do Tucarena, entendem que promotores instruem o processo e saem de cena ao entregar o resultado do seu trabalho ao juiz, ou a um colegiado, para um julgamento imparcial? E quantos sabem que cabia ao STF impedir o impeachment de Dilma e punir os crimes cometidos e largamente provados ao longo do processo contra Lula pela Inquisição de Curitiba e Porto Alegre? Quantos ainda registram os casuísmos forjados para permitir a prisão de Lula?

O golpe aprisiona o País nas suas próprias carências, no seu primitivismo, na sua ignorância, na sua irrecorrível medievalidade, e nunca isso tudo foi tão claro. A lembrança da obra-prima de mestre Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, é obrigatória. Trata-se da análise profunda de um longo enredo, aquém e além do descobrimento do Brasil, que se inicia em Portugal sob a dinastia de Avis e se completa hoje com a situação criada pelo estado de exceção precipitado pelo golpe desferido pelos Poderes da República, com o apoio maciço e efusivo da mídia nativa.

Na dianteira esta, conluiada com o Judiciário politizado. Quanto aos outros Poderes, sabemos que o Congresso não representa o povo, e sim as oligarquias, enquanto o Executivo foi entregue a autênticas quadrilhas de larga tradição mafiosa. O Brasil já foi único pelas dádivas recebidas da natureza que o pretendia quase um Jardim Terrestre, ao cabo é único na sua espantosa desgraça.

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