Delírio criminoso

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Nada mais tenho a dizer sobre o Brasil de hoje, a obra-prima da dinastia de Avis atingiu o país (revisão, por favor, toda a palavra em caixa baixa) sem futuro. Um amigo italiano, jornalista, Franco Vaselli, escreveu um livro intitulado Povero Rico Brasile, pobre rico Brasil, entreguei-o a dois editores faz algum tempo, não se dignaram de me dar uma resposta. É um livro interessante de um estrangeiro que vem ao país e ao cabo de uma longa visita se pergunta como se deu que uma terra tão beneficiada pela natureza seja tão atrasada e medieval.

E mais: em boa parte, burra, hipócrita, covarde, delirante, idiota, escolham o adjetivo certo, ou acrescentem outros à vontade. O lance final vem com a metáfora da imbecilidade criminosa: ao tropeçar nos comentários impressos e falados sobre os tiros que atingiram a caravana lulopetista, verifico que o responsável pelo atentado é o próprio Lula. Se uma das balas tivesse acertado o ex-presidente, diriam os analistas da mídia nativa que culpado foi o assassinado.

Alguns colunistas que me forcei a ler são, além de escritos por quem não tem a lida fácil com o vernáculo, autênticas peças do humorismo do absurdo. Calo-me diante da parvoíce galopante, da desgraça extrema. Daqui em diante, cogito de apresentar neste espaço receitas de pratos do meu apreço, ou extrair da estante da memória os papiros de histórias do passado, sempre difícil mas ainda esperançoso, como passo a fazer nesta edição.

Desde o começo de 1981, escrevia na Folha de S.Paulo cinco textos semanais sobre assuntos os mais variados a convite do velho Octávio Frias, generosamente apiedado pela minha condição de desempregado. Fui despedido da direção da IstoÉ por Fernando Moreira Salles, novo patrão em consequência do fracasso do Jornal da República. O banqueiro prontificou-se a tapar o buraco da dívida criada pela minha teimosia e ficou com a revista.

As razões da demissão foram expostas, não sem amabilidade, durante um almoço na casa do patrão, excitado por entrada de canapés de caviar e prato forte de risotto alla milanese. Em tom cardinalício, o jovem Fernando esclareceu que eu me tornara influente demais na vida dele, que a minha amizade com Luiz Inácio, vulgo Lula, o incomodava demais e que a redação reunia-se com ele nas pregas da noite para me apontar à execração patronal como um tirano. Conforme já sabia, na hora da dificuldade os jornalistas nativos, em sua maioria, correm ao lado de quem lhes paga o salário.

Era fevereiro de 1981, conseguira manter a direção da IstoÉ por um ano desde a intervenção de Moreira Salles. O velho Frias chamou-me ao nono andar da Folha e me disse: “Você já deveria abandonar a ideia de lançar revistas, venha escrever no meu jornal”. E assim foi. Um ano depois, André Franco Montoro hospedou-me no seu carro, à testa da caravana da sua campanha ao governo do estado de São Paulo. O PSDB não surgira e o MDB não ganhara um P na sigla. Minha cobertura do evento foi publicada no dia seguinte e ocupou uma página inteira.

Montoro era figura límpida e simpática, um cavalheiro cortês na acepção mais ampla. A caravana atravessou a zona açucareira do estado em um domingo de sol, sempre muito bem recebida. Mastiguei um número inverossímil de empadinhas e tomei copos e copos de cerveja à falta de vinho. E me espantei com a vitalidade do candidato e de alguns acompanhantes graúdos, chamados a discursar em praça pública em quatro cidades engalanadas.

A quinta, Rafard, alcançamos de noite no fim da jornada e a boleia de um caminhão transformou-se em palanque, para uma plateia de rostos campônios entre atônitos e perplexos, um ou outro enchapelado. Uma brisa morna agitava os canaviais a nos cercarem e os punha a ciciar.

Montoro falaria por último, antes dele houve oradores do porte de Fernando Henrique Cardoso. Do meio das gentes apinhadas na boleia, abriu espaço às braçadas Mario Covas, e sentou-se a meu lado na amurada oposta. FHC falava no tom popularesco que costuma usar ao se dirigir a plateias mais simples, diria simplórias, sem perder, porém, a postura senhorial.

Eu não seguia as palavras, apenas o som. Covas levou as mãos às têmporas e baixou a cabeça, e a meneou com transparente desalento. Ele, sim, acompanhava as palavras, e o significado lhe doía por dentro.

Muitos anos depois, o PSDB já nascido da dissidência interna do PMDB do doutor Ulysses, FHC se dispunha a ser ministro do Exterior de Fernando Collor. Covas, que conhecia a fundo as ambições do pavão professoral, interpelou o companheiro: “Se você for, eu saio do partido, ou você sai”.

Era o tempo da chamada redemocratização, e Collor foi o primeiro presidente eleito no período em pleito direto. Eu começava a perder as esperanças.

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