O titereiro

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Dia 3 de agosto de 1975, o general Golbery me ligou. “Estou de volta – disse –, venha amanhã.” Naquele dia, o ditador fardado Ernesto Geisel pronunciara o discurso chamado “da pá de cal” para anunciar a interrupção abrupta do processo de distensão “lenta, gradual, porém segura e o doutor Ulysses a comparava a Idi Amin.

Depois de sofrer o descolamento da retina, Golbery, chefe da Casa Civil, se afastara do governo por vários meses para ser operado na Espanha. Retornara no final de junho ao Rio e ali, fechado em um quarto escuro, passara a convalescença por todo o mês de julho. E lá fui eu encontrá-lo em Brasília.

Já contei essa história várias vezes, mas, impávido, estou à vontade para contá-la mais uma: as repetições ajudam, como diziam os antigos romanos, e nem todos os que me honram com sua leitura têm a obrigação da boa memória.

Entendo, enfim, que é dever do jornalista oferecer subsídios aos historiadores de amanhã, sem deixar de sublinhar que a história do País se baseia, sobretudo, em equívocos e mentiras.

O general, detestado, aliás, pela maioria dos companheiros de farda, ao me receber tinha sob os olhos uma cópia veementemente rabiscada do discurso de Geisel. Atirou-a sobre uma mesinha central da saleta em que nos achávamos com um gesto entre o desprezo e a ira, e sentenciou: “Isto vai provocar a escalada do terror de Estado”.

Revelou-me que o texto do discurso fora encomendado por Geisel ao ministro João Paulo dos Reis Velloso e insistiu na gravidade da situação criada, a incitar os janízaros do regime, sustentados por uma fatia conspícua do empresariado nacional.

Golbery não se enganava, a ofensiva do terror de Estado levou aos assassínios de Vlado Herzog e, três meses depois, em janeiro de 1976, do operário Manuel Fiel Filho, e à prisão de inúmeros cidadãos, muitos deles torturados.

Nesta moldura trágica caberia a chacina da cúpula do PCB, contrário, diga-se, à luta armada, e o acordo com as demais ditaduras do Cone Sul na Operação Condor, para a repressão feroz de quaisquer formas de resistência. Vale lembrar as misteriosas e quase concomitantes mortes dos três aliados da Frente Ampla, Goulart, Juscelino e Lacerda.

Fala-se hoje de documentos liberados pela CIA em 2015, entre os quais aquele localizado pelo colunista da Folha de S.Paulo, Matias Spektor, a revelar o aval dado por Geisel ao assassínio de adversários da ditadura.

Não fiquei surpreso: em uma fluvial entrevista ao CPDOC da FGV-RJ, publicada faz anos (leia a coluna de Mauricio Dias) em um volume capaz de derrubar criados-mudos, Geisel, já de pijama, declara recomendável a tortura “quando necessário”.

Há quem apresente o ditador como o sacerdote da missão de levar a bom termo a abertura política, o que vai na contramão da reação de Golbery naquele 4 de agosto de 1975. Em tudo o que o chefe da Casa Civil dizia pareceu-me colher um subtexto: veja só como o homem se aproveita da minha ausência.

A bem da verdade, a relação entre o ditador e o chefe da Casa Civil não era de intimidade, e sim bastante formal. Dons de feiticeiro Golbery realmente possuía, a ponto de desenrolar de fio a pavio o enredo da ditadura, começo e fim. As próprias indiretas de 1985 deram por encerrado o regime obediente ao script golberiano e aconteceram entre os candidatos por ele escolhidos de antemão, Tancredo e Maluf.

Em uma entrevista que Dom Paulo Evaristo Arns me deu na primeira metade de 1995, publicada em CartaCapital, extraio esta passagem sobre Golbery: “Ele tinha me prometido, no começo do governo Geisel, acabar com a tortura e um ano depois eu levei as famílias de torturados, 40, para Brasília e ele passou a tarde inteirinha conosco.

No fim, diante de todos eles, ele chorou. Ele disse: ‘Nunca imaginei que nosso regime fosse levar a tanta injustiça’. Ao entrar no carro, ele me chamou e me disse ao ouvido: ‘E essas coisas ainda estão acontecendo, não é possível’.

Ele estava mesmo contra a tortura e muitas coisas mais. (…) Falamos muitas vezes, almoçamos sozinhos e ele me dizia uma porção de coisas. No final, eu tinha uma profunda simpatia por ele. Vi que tinha a mesma ideia que nós em relação à tortura, à censura e à própria ditadura”.

Geisel odiava Dom Paulo, e também eu merecia esta regalia do ditador tonitruante. Sei desta antipatia por causa do depoimento de Karlos Rischbieter em seu livro de memórias, na passagem em que relata minha saída da Veja, e de uma singular fala do general Figueiredo, pronunciada durante um churrasco em 1988, quando sustenta que eu reescreveria o Evangelho, que Geisel me detestava, mas que não tenho rabo preso.

De minha parte, logo percebi em Geisel o bestalhão escolhido a dedo por Golbery para ser o títere na mão do titereiro. Nem sempre deu certo.

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