A incógnita Bolsonaro

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Um excelente ator cômico italiano, precursor de Totò e Alberto Sordi, um Chico Anysio peninsular que escrevia seus próprios textos, Ettore Petrolini fez no teatro e no cinema uma paródia de Benito Mussolini no começo da década dos anos 30 do século passado, em plena ditadura fascita.

O Duce e seus denodados asseclas de camisa preta não perceberam que Nero, o imperador romano incendiário, protagonista do sketch, era ele mesmo, o ditador, ridicularizado impavidamente.

Mussolini não era, porém, um estúpido, e talvez até gostasse de Petrolini. Ele tinha boa cultura, esquerdista na juventude, jornalista competente, na escrita e na fala. Quando a península saiu da Primeira Guerra Mundial, na qual Mussolini combatera e 600 mil italianos haviam morrido, virou a casaca ao compreender que o país estava longe da modernidade, como resultado de guerras de independência destinadas, no século XIX, a entregar o poder à burguesia.

Soube como motivar os pequenos-burgueses sequiosos por ascensão social e franjas populares complexadas, e inventou o fascismo. A Marcha sobre Roma levou-o ao poder em 1922 e, com o golpe de 1924, depois do assassinato do líder socialista Matteotti, instalou a ditadura.

Há quem suponha que o capitão Jair Bolsonaro tem vocação mussoliniana. A comparação entre as duas personagens parece-me impossível, embora ambos mirem nas aspirações de porções da população. A Itália de cem anos atrás não tem parentesco com o Brasil de hoje.

Meu pai, antifascista, sustentava que Mussolini alimentava o maior desprezo por seus compatriotas ao seduzi-los com fardas circenses para vestir adultos e crianças ou com a conquista da Etiópia em busca de um império colonial, ou a construção de gigantescos navios de passageiros e a acirrada competição pelas pistas europeias entre Alfa Romeo e Mercedes.

Aderiu em câmera lenta à sanha racista de Hitler e, na esteira, tardiamente declarou guerra à França e à Grã-Bretanha sem armamento adequado na terra e no ar. Achava que a vitória alemã estava na esquina.

Bolsonaro não é Mussolini, embora haja quem o enxergue como nacionalista, igual ao ditador, o qual também soube conciliar com a burguesia, conforme ensaia hoje o capitão com a desassombrada colaboração de Paulo Guedes.

As diferenças, contudo, são por demais explícitas, na personalidade e nas circunstâncias. Bolsonaro não aposta nos recalques de larga parte insatisfeita da nação, e sim no primitivismo e na parvoíce crônica que se manifesta no Brasil de ricos a pobres. Não caberá espanto se muitos moradores da casa-grande se inclinarem a votar no capitão.

No reacionarismo extremado que o colocou na ribalta, ele foi claramente de brutal sinceridade. Pode-se dizer o mesmo em relação ao seu americanismo, revelado inclusive por sua visita aos EUA no ano passado, e às atuais piscadas neoliberias na direção do mercado?

Esperteza eleitoreira ou abrupta e duradoura mudança de rota? Que houve com o tosco candidato talhado, sobretudo, a organizador de linchamentos? Transparente outra aposta: no fracasso do PSDB, devorado por sua ambição de ser o mais lídimo representante do establishment. Será que Bolsonaro quer o lugar deixado vago pelos tucanos?

Não, o capitão não é Mussolini e o Brasil não é a Itália dos anos 1920. Fica inarredável a pergunta: quem é de fato Bolsonaro? Dizem os meus intrigados botões: a sinceridade de antanho retraiu-se diante da perspectiva das urnas próximas e do bom desempenho nas pesquisas. Convém agora o pragmatismo recomendado pela arte do possível. Sim, digo eu, mas qual haverá de ser a duração da guinada? Aí, retrucam os botões, são outros quinhentos.

A dúvida diz respeito à reação dos donos do poder, à falta de um candidato da casa. A lacuna terá consequências em um panorama de infinita incerteza, a justificar outra dúvida, já levantada inúmeras vezes nesta página: haverá eleições? Certo é que Mussolini não faria uma declaração de vassalagem a uma potência estrangeira.

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