UNESCO diz que há chance de recuperar parte do acervo do Museu Nacional

Após duas visitas técnicas ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, especialistas da UNESCO afirmaram que existem chances de recuperar partes do acervo da instituição, destruída no início do mês por um incêndio. Mas como equipes técnicas ainda não puderam entrar no prédio, por questões de segurança e investigações da polícia, não é possível saber quais itens da coleção poderão ser encontrados e restaurados.

Em coletiva de imprensa em Brasília, o membro do Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais (ICCROM) e integrante da missão, José Luiz Pedersoli, disse que o Museu já está mapeando as coleções nos diferentes pisos e nas diferentes salas, para que seja definido o grau de prioridade em termos de vulnerabilidade e de valor cultural e financeiro. Com base no mapeamento, serão criadas as rotas de acesso para facilitar os resgates prioritários.

Cristina Menegazzi, chefe da equipe emergencial da UNESCO, explicou que “a coleção do Museu está bem inventariada, e isso é muito importante para identificar quais foram os objetos que existiam e o que foi perdido”.

De acordo com a especialista, existem muitas informações arquivadas sobre os itens do acervo, o que é primordial para que eles possam ser restaurados, replicados ou para que passem a fazer parte de coleções documentais sobre o que havia no Museu.

Menegazzi explicou que o trabalho de reconstrução do acervo e do prédio é estimado em vários anos, pois será complexo e exigirá o envolvimento de uma equipe multidisciplinar, ainda a ser definida a cada fase, com base na expertise necessária para atuar em cada momento.

Na avaliação de Pedersoli, todas as etapas serão complexas, desde a triagem dos materiais, conservação, documentação, limpeza, embalagem e armazenamento temporário, até que os itens das coleções possam voltar a ser expostos.

A missão da UNESCO chegou ao Rio na semana passada (13) para se reunir com as autoridades brasileiras e com os atores nacionais e locais envolvidos com o Museu. A delegação de especialistas também realizou duas visitas técnicas à instituição. A equipe deve permanecer no Brasil até o próximo domingo (23).

Além de Menegazzi e Pedersoli, o grupo é composto por dois profissionais alemães, Ulrich Fischer e Nadine Thiel, especialistas em prevenção e gestão de desastres. A dupla liderou os trabalhos de resgate e preservação de documentos e itens do Arquivo Público de Colônia, na Alemanha, que desabou em 2009. Juntos, fundaram uma rede de apoio voltada principalmente para a preservação de documentos. Hoje, a organização reúne 24 arquivos e bibliotecas da cidade alemã para discutir e implementar estratégias na gestão de riscos.

Durante o encontro com jornalistas na capital federal, Menegazzi explicou que a missão ajudará o país a definir os próximos passos para a recuperação do Museu. A especialista agradeceu às diversas instituições envolvidas com o Museu Nacional, como o Ministério da Educação (MEC), o Ministério da Cultura (MinC), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Conselho Internacional de Museus (ICOM).

“É muito importante trabalharmos com todas as instituições que, direta ou indiretamente, podem apoiar a missão”, completou.

UNESCO vai liderar apoio internacional ao Brasil

Também presente na coletiva de imprensa, a diretora e representante da UNESCO no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, destacou a solidariedade da Organização com o Brasil para lidar com a tragédia. A dirigente lembrou a carta enviada pela chefe da UNESCO, Audrey Azoulay, ao presidente do Brasil, Michel Temer, e ressaltou também todos os esforços realizados pela agência para trazer a missão de emergência.

O organismo também se disponibilizou a coordenar os apoios internacionais, sendo eles técnicos, financeiros ou relativos a doações e empréstimos de acervos de diversos museus que possuem duplicatas ou itens semelhantes aos encontrados no Museu Nacional. Governos, museus e instituições de países como Alemanha, Itália, França, Espanha, Argentina, Estados Unidos e Canadá já ofereceram ajuda.

“Temos uma visão muito otimista porque vemos uma grande onda de solidariedade internacional e um esforço significativo do governo brasileiro para rapidamente endereçar essa situação de urgência. Os museus cumprem um papel fundamental na sociedade, representando a diversidade, a riqueza da humanidade e, no caso do Museu Nacional, era também um prédio histórico e uma instituição de ensino e pesquisa”, disse Noleto.

“Esperamos ter de volta o Museu, desempenhando todas as suas funções. Reconstruído com o apoio generoso da comunidade internacional, com o apoio da UNESCO, presente com a missão dos especialistas, e com o governo brasileiro, que tem dado o apoio às ações emergenciais deste primeiro momento”, acrescentou.

Também na terça-feira (18), aconteceu uma reunião organizada pela UNESCO, em seu escritório em Brasília, com representantes dos países que já ofereceram ajuda ao Brasil no esforço de reconstrução do Museu Nacional, como Argentina, China, Canadá, Itália, Suíça, Portugal, Espanha, Estados Unidos e Holanda.

Entre os participantes, estava o embaixador da Alemanha, Georg Witschel. O Estado alemão já ofereceu 1 milhão de euros ao Brasil, além da colaboração dos dois especialistas de Colônia que compõem a missão da UNESCO. “O objetivo da reunião foi discutir o apoio da comunidade internacional, que será liderado pela UNESCO, para os esforços de reconstrução do Museu”, explicou Noleto.

Prevenção

Em uma segunda fase da missão da UNESCO, que poder ser realizada ainda esta semana, a ideia é visitar alguns outros museus e instituições ligadas ao patrimônio cultural do Rio de Janeiro para conhecer suas medidas de prevenção na área de segurança e gestão de riscos.

Com base nas visitas da missão e na Recomendação referente à Proteção e Promoção dos Museus e Coleções, sua Diversidade e seu Papel na Sociedade, documento aprovado em 2015 pela Conferência Geral da UNESCO, a UNESCO proporá medidas ao governo brasileiro no sentido de reduzir a ocorrência e o impacto de desastres em instituições responsáveis pela gestão de acervos culturais e científicos.

Para Pedersoli, “é importante promover uma cultura de prevenção de riscos de incêndios, alagamentos e outros tipos de desastres”. “Não podemos apenas responder e recuperar o que já foi danificado.”

Sobre a missão

A missão da UNESCO foi financiada com recursos do Fundo Emergencial do Patrimônio, estabelecido pela agência da ONU em 2015. O objetivo do repositório de recursos é fortalecer a capacidade dos países de prevenir, mitigar e recuperar perdas do patrimônio e da diversidade cultural, provocadas por conflitos e desastres. A UNESCO documentará todo o processo da missão, a fim de divulgar e orientar os Estados-membros sobre como devem enfrentar ou evitar situações de risco.

Sobre os especialistas da missão da UNESCO

Cristina Menegazzi é responsável, desde 2014, pelo Programa de Salvaguarda de Emergência do Patrimônio Cultural Sírio, no escritório da UNESCO em Beirute (Líbano). É doutora em Gestão de Risco de Desastres do Patrimônio Cultural pela Universidade de Viterbo-Roma, Itália, e bacharel em História da Arte pela Universidade de Bolonha, Itália. Também tem mestrados em Conservação Preventiva do Patrimônio Cultural pela Universidade Sorbonne, em Paris; em Gestão e Conservação de Museus pela escola estatal francesa (Institut National du Patrimoine); e em Arte Contemporânea pela Universidade de Bolonha, Itália. Atua há mais de 25 anos na área de patrimônio cultural, com foco em conservação e preservação de coleções; práticas de museus; desenvolvimento de projetos, políticas e pesquisas estratégicas; planejamento cultural; gestão de equipes e projetos e captação de recursos.

José Luiz Pedersoli Junior é gestor de projetos de conservação de coleções do Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais (ICCROM, na sigla em inglês), na Itália. Ele é graduado em Química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Química de Polímeros com ênfase em materiais celulósicos e aplicações na área de conservação de Patrimônio pela Universidade de Helsinque, na Finlândia. Tem experiência profissional nas áreas de gestão de risco ao patrimônio cultural, de ciência de materiais aplicada à preservação de bens culturais (mais especificamente de coleções em papel e materiais relacionados), de princípios científicos para a conservação e de processos de tomadas de decisão para conservação do patrimônio.

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