Sobre a gênese da grosseria

Por Luiz Gonzaga Belluzzo – Da Revista CartaCapital

No livro Phenomenology of The End, o filósofo Franco Bifo Berardi desvenda as transformações produzidas pela invasão da inteligência artificial, internet das coisas, robótica.

Diz Berardi que a economia territorial do primeiro capitalismo industrial “estava ancorada na dureza material do ferro e do aço, já em nossa era a economia está baseada no caleidoscópio da engrenagem semiótica à margem dos territórios: as mercadorias que circulam no espaço econômico são signos, cifras, imagens, projeções e expectativas. A especulação e o espetáculo misturam-se na natureza intrinsecamente inflacionária e metafórica linguagem”.

Bifo Berardi aponta para o fenômeno do surgimento e multiplicação das chamadas plataformas digitais. Hoje elas invadem o espaço ocupado pelo comércio, pela finança, pelos serviços, pela publicidade e pela produção.

Outrora apoiado em edificações distribuídas pelos espaços físicos nas cidades e arredores o comércio ‒ atacado e varejo ‒ baseado no contato pessoal entre funcionários vendedores e clientes vem sendo substituído pelo e-commerce que coloca os clientes em contato direto com as mercadorias.

Estão em risco as cadeias de lojas distribuídas pelo espaço urbano, os shopping centers, restaurantes, livrarias, casas de entretenimento.

Os bancos e as demais instituições financeiras reduzem as agências e os serviços prestados pessoalmente por gerentes e funcionários. Os serviços bancários são terceirizados para agentes autônomos, sem relações de trabalho formais com as plataformas que funcionam como um centro de controle das atividades.

Essas plataformas, ao contrário do que sugerem as versões disseminadas pelo senso comum, facilitam a concentração bancária, transformadas em braços mercantis das grandes instituições financeiras.

As chamadas fintechs apresentadas como um avanço para a maior competitividade se transformam, na verdade, em operadoras das grandes instituições bancárias e financeiras.

Os trabalhadores autônomos, empreendedores de si mesmos, assumem os riscos da atividade ‒ investimento, clientela ‒, mas estão submetidos ao controle da plataforma na fixação de preços e repartição dos resultados.

Essa organização do trabalho foi predominante nos primórdios do capitalismo manufatureiro da era mercantilista, sob a forma do putting-out system. Os comerciantes forneciam a matéria-prima para os artesãos “autônomos”, que estavam obrigados a entregar o produto manufaturado em determinado período de tempo.

As empresas e as plataformas deixaram de alugar a força de trabalho das pessoas, mas compram “pacotes de tempo”, separados de seus proprietários ocasionais e intercambiáveis. O tempo despersonalizado, diz Berardi, tornou-se o agente real do processo de valorização e o tempo despersonalizado não tem direitos, nem demandas.

Apenas deve estar disponível ou indisponível, mas essa alternativa é meramente teórica, porque o corpo físico, a despeito de desconsiderado juridicamente, ainda tem que se alimentar e pagar aluguel.

Bifo Berardi cuida das relações entre a produção de bens físicos e a financeirização: “Em suas etapas mais recentes, a produção capitalista reduziu a importância da transformação física da matéria e a manufatura física de bens industriais, ao propiciar a acumulação de capital mediante a combinação entre as tecnologias de informação e a manipulação das abstrações da riqueza financeira.

A informação e a manipulação da abstração financeira na esfera da produção capitalista tornam a visibilidade física do valor de uso apenas uma introdução na sagrada esfera abstrata do valor de troca”.

O capitalismo das plataformas acentua duas tendências inerentes às economias contemporâneas: a aceleração do tempo e o encolhimento do espaço.

Filhas diletas da aceleração do tempo e encurtamento do espaço, a globalização financeira e a deslocalização produtiva levaram à exasperação os desencontros entre a integração dos mercados promovida pela finança controladora da grande empresa transnacional e os espaços jurídico-políticos nacionais, espaços habitados por homens e mulheres de carne e osso.

Esmagados pelo bombardeio de informações anônimas que os aprisiona no éter das redes sociais, os humanos habitantes dos espaços concretos buscam refúgio na enganosa segurança das crenças mais simples e simplórias.

Na trágica “automação psíquica” dos indivíduos, os processos conscientes são substituídos por reações imediatas, simplificadoras e simplistas, quase sempre fulminantes e esféricas em sua grosseria. Nesses soluços de presunção opinativa, a consciência inteligente, o pensamento e os próprios sentimentos desempenham um papel modesto.

É uma tentativa desesperada de recuperar o espaço capturado pelas cruéis abstrações reais da economia globalizada e da indústria 4.0.

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