A síndrome do capataz

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Diz o presidente Bolsonaro que as Forças Armadas garantem a democracia. Ora, ora, capitão: qual é o país democrático e civilizado em que tal é a missão dos militares? O presidente é dado a arroubos desvairados. No patamar atingido por aquelas nações, as Forças Armadas são um instrumento apolítico a serviço do Estado para o cumprimento de funções listadas pela Constituição, entre elas a defesa das fronteiras em caso de ataque estrangeiro. Na terra da casa-grande e da senzala a tradição é outra: as Forças Armadas têm o costume de periodicamente assaltar a democracia, por mais frágil e precária que seja.

Temos uma longa história de tentativas de golpes, e de golpes bem-sucedidos, todos fardados, cometidos por um exército de ocupação, embora envergue uniforme verde-oliva. Haverá quem observe que o golpe de 2016 escapa à tradição, mas Bolsonaro, sua inevitável consequência, militariza o governo e esclarece de vez a questão. Passaram-se menos de três anos e a verdade factual veio à tona.

Pena que o povo brasileiro só revele alguma tendência à revolta quando cavalga o espírito carnavalesco e a Mangueira desminta o enredo oficial e cante que sempre e sempre fomos invadidos. Graças aos vídeos obscenos, Bolsonaro espanta o mundo e transforma o Carnaval, nosso espetáculo-mor, em caso internacional. Por aqui até aparece quem proponha o impeachment daquele que enxovalha o cargo. E que, além do mais, meteu-se em confusões e soltou os filhos, cabeças de Cérbero do inferno nacional.

A iniciativa tem foros de validade, creio. Por ora, suponho-a irrealizável. Há mais a dizer, contudo, sobre as estripulias bolsonaristas. O primeiro mandatário é também expert na internet e, como sabemos, usa a rede social com toda a paixão das suas emoções. Foi assim que se atirou a apontar à execração pública uma jornalista do Estadão, Constança Rezende, ao acusá-la de ter afirmado que o jornal pretendia “arruinar” o filho Flávio e o governo. A informação inicial é de um jornalista francês que atenderia pelo nome de Jawad Rahib, desentocado pelo site Terça Livre, onde medra um grupelho de colunistas de extrema-direita.

Constança nunca foi entrevistada por Rahib. Suas frases, em inglês, saem da gravação de uma conversa com um suposto estudante interessado em comparar as personalidades de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Terça Livre entra em ação e pinça algumas passagens da conversa, sem deixar de provar não ter aproveitado as aulas online que na tevê nativa garantem o aprendizado do idioma de Shakespeare em 15 minutos. De todo modo, Constança jamais disse que seu jornal pretendia “arruinar” Bolsonaro, mas apenas que certas divulgadíssimas atitudes do presidente poderiam comprometê-lo.

Constança é filha de um repórter investigativo de O Globo, Chico Otávio, autor de uma excelente reportagem a respeito dos assassinos da vereadora Marielle divulgada na terça 12, e com gosto registro que pai e filha cumprem o dever jornalístico com honra e competência. Constança está certa: Bolsonaro empenha-se com denodo para se comprometer por conta própria. Os seus últimos lances empurram a mesma mídia nativa golpista que apoiou o impeachment de Dilma Rousseff, elevou Sérgio Moro a herói da pátria, aplaudiu as reformas de Temer e a prisão de Lula e contribuiu para a criação do monstro e da ameaça de uma ditadura totalitária gestada pela demência, começa a dar cautelosos passos atrás.

Já estava claro que a Globo não aprecia a declarada preferência de Bolsonaro por outras empresas de comunicação, a começar pela Record de Edir Macedo, mas uma mudança de linha é evidente nestes dias na mídia impressa, Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Veja e IstoÉ. No caso desta semanal, é plausível que as fontes de sustentação tenham secado, assim como em relação a Veja a ausência de Roberto Civita, inventor da lâmpada Skuromatic, que produz a treva ao meio-dia (a brilhante definição não é de minha lavra), e de seus descendentes pode explicar muitas coisas.

O resumo da situação é obra de Marina Silva, e me agrada transcrevê-lo: “A postura tóxica e irresponsável do presidente Jair Bolsonaro, ao atiçar uma onda de ódio e difamações contra uma jornalista e a imprensa, com base em factoides, é muito grave e preocupante. Isso destrói reputações, divide belicosamente o País e mostra desapreço pela democracia”. Permito-me observar apenas que desapreço é pouco para identificar a atual postura de um governo que se imiscui em todos os campos e impõe regras destinadas a anular quanto ainda resta em matéria de liberdade individual, direitos humanos, diria mesmo de um resquício de inteligência.

Os parâmetros da derrocada, aparentemente irremediável, medeiam entre a doutrinação de Olavo de Carvalho, ideólogo demente do regime, e os programas evangélicos, a infestar a televisão e em boa parte a sustentá-la. Entre a concepção do ensino do ministro da Educação, que enxerga nas salas de aula uma grei a ser tangida, e as tiradas insanas da ministra Damares. Besteiras inéditas poluem os ares e humilham os espíritos sadios faz dois meses e meio de vida de um governo que não foi além do ataque cerrado contra a Razão. Aos olhos de alguns, ou de muitos, o vice-presidente Mourão dá sinais de coerência em meio ao delírio, a ponto de exibir condições de substituir dignamente o capitão, engolido por seus próprios pesadelos, desmandos éticos, nenhuma visão do mundo e o humor constantemente a ferver de raiva.

Não sei onde começa a ilusão e acaba a visceral crença no autoritarismo fardado professada por inúmeros cidadãos inclinados à submissão diante de um exército de ocupação. Não mora aqui a mais tênue esperança democrática. É sempre a síndrome do capataz: ele brande a chibata, a senzala obedece e o dono da casa-grande e dos escravos dorme tranquilo.

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