A Teoria do Medalhão (uma paródia do conto de Machado de Assis)

Por Luiz Gonzaga Belluzzo – Da Revista CartaCapital

Estás com sono? – Não, senhor. – Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são? – Onze. – Saiu o último convidado da nossa churrascada. Muita cerveja.

Meu peralta, chegaste aos teus trinta e cinco anos. Há trinta e cinco anos, no dia 10 de julho de 1984, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, barba crescida, alguns namoros…

– Papai…

Falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Trinta e cinco anos, entraste no parlamento, mas há infinitas carreiras diante de ti. Trinta e cinco anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Hitler e Mussolini não foram tudo aos trinta e cinco anos. O meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum.

A vida, Dudu, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra.

– Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão na embaixada brasileira nos Estados Unidos. Pretendi ser medalhão desde a minha infância; não lhe faltam, portanto, os exemplos de um pai. Passei a você, meu filho, a linguagem do boteco. Por isso deposito em ti minhas esperanças. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende.

O sábio que disse: “A gravidade é um mistério do corpo”, definiu a postura do medalhão. Solta o verbo com convicção. Ele acaba no esgoto das redes sociais onde circulam nossas ideias sobre o Brasil.

– Entendo.

Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira de medalhão, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente. Tu, meu filho, se não me engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste ofício.

Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto que indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não, refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca da política brasileira e da situação mundial. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofremos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

– Creio que assim seja, mas um tal obstáculo não é invencível. Há um meio: lançar mão de um regímen debilitante, ouvir Donald Trump, conversar com Steve Bannon e, no Brasil, abastecer seu repertório de banalidades no Globonews, ouvir a Joyce Hasselmann, escutar os ministros Abraham Weintraub e Paulo Guedes.

O Twiter, o WhatsApp e o Instagram são remédios aprovados. Todas essas mezinhas de aviltamento do espírito têm até a rara vantagem de aproximar os falatórios do silêncio barulhento, que é a forma mais contemporânea da produção de indigência mental.

Com este regímen, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos – reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias. Há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…

– Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando…

– Podes, podes empregar umas quantas figuras expressivas,

“O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro ele muda o comportamento dele. Tá certo?”,

“Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher”,

“O erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Fostes bem, nessa: “Diplomacia sem armas é como música sem instrumentos”.

– No parlamento, posso ocupar a tribuna?

– Podes e deves. É um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: – ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica.

Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público. “O Brasil acima de Tudo, Deus acima de Todos” não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade. “É só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida”.

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