Lição equatoriana: o Brasil carece de um povo corajoso e consciente

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Singular país, o Brasil. Peculiar. Mal o ex-capitão assumiu a Presidência, já então se falou em sucessão. O governo criado pelo golpe de 2016 ainda não completou o primeiro ano de mandato fraudado e a campanha eleitoral está na mídia e nas redes sociais como assunto prioritário, enquanto os candidatos entram na liça.

Em primeiro lugar o próprio Bolsonaro, declarado aspirante à reeleição. Evidente a presença de João Doria, aquele rapaz lustroso que organizava festas à fantasia em recantos dotados de esplendor tropical para poderosos contingentes e imanentes, até mesmo ministros de Lula. Outro que não se esconde é Luciano Huck, apresentador global de forte vocação populista, em odor de tucanismo, municiado pelo repertório neoliberal de Arminio Fraga e abençoado por Fernando Henrique Cardoso, sumo pontífice da enrolação.

Não há como excluir deste páreo o governador Witzel, com todo seu exibicionismo no estilo Batman, que também voa e do alto identifica os representantes do Bem e do Mal. Mas há outros, explícitos e nem tanto. Confesso que muito me agradaria penetrar os pensamentos do general Mourão, discreto, mas sempre lembrado. Enfim, já vivemos um clima pré-eleitoral três anos e dois meses e meio (gosto da precisão) antes do pleito de 2022. Como interpretar esta situação?

Como prova de que o País acredita na normalidade, ou seja, já digeriu os cinco anos de história que consagram a fraude. Ou ainda, o Brasil aceita sem um pio, sem contar quem se regozija, incapaz de perceber a enésima afronta. Constrange-me observar, levado a tanto pelos fatos, que a parvoíce, a ignorância e a pusilanimidade brasileiras estabelecem um recorde mundial. Acabamos de receber uma lição de destemor do povo equatoriano, capaz de obrigar o governo, por uma revolta que enche as ruas, a revogar medidas destinadas a elevar o custo da vida. Um quarto da população do Equador é indígena e é simples imaginar não terem sido insuflados por agitadores vermelhos.

No Brasil da casa-grande e da senzala, a cultura da escravidão não arrefeceu, como bem sabemos, ou deveríamos saber à luz da verdade factual. A minoria abastada é cada vez mais feroz no cumprimento do propósito de manter a distância, a maioria traz no lombo a marca da chibata, vítima, sem se dar conta, ao mesmo tempo de descaso e perseguições.

Assim como muitos brasileiros graúdos ignoram onde nasceram e se supõem cidadãos do mundo, o povo, quer dizer a maioria, ignora a sua cidadania. Não passa de uma folha ao vento de outono. O que falta ao Brasil é uma população consciente, a bem das intenções da dinastia de Avis, como diria Raymundo Faoro, e é disso que se aproveita a casa-grande, com a conivência de duvidosas figuras dadas a se dizer de esquerda.

O alvoroço pré-eleitoral a caracterizar o momento exibe a certeza de que tudo está dentro das regras, quando é do conhecimento até do mundo mineral que esta não é a paz anunciada pelos anjos da noite de Belém ao prometê-la aos homens de boa vontade. É a paz dos endinheirados e dos beócios. A situação econômica do País é muito grave e tende a piorar. Aí está um excelente motivo de preocupação para quantos já estão em campanha. Talvez possam figurar com honra na categoria dos beócios.

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