Lula entendeu que, para consertar o Brasil, o confronto é inevitável

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Um caminho íngreme desenrola-se diante de Lula neste exato instante, mas se eu digo “o bolsonarismo vai armar mil dificuldades e tramoias para te levar de volta à cadeia” ele responde: “Eles nem imaginam as tramoias que eu posso armar para enfrentá-los”. O Lula saído da jaula sem ter sido absolvido conforme a sua exigência aprendeu no cativeiro algo fundamental: não há chance de compromisso, de negociação daquilo que se costuma chamar de conciliação das elites, como se a casa-grande estivesse disposta a baixar a ponte levadiça e escancarar os seus portões para permitir a entrada na mansão senhorial daqueles que considera representantes da senzala.

Lula está pronto para o confronto e diz que o exemplo neste momento vem do Chile e da Bolívia, onde o povo vive uma situação de destemida rebeldia. É questão importante o reconhecimento da valentia de populações muito diferentes da brasileira. E esta é uma das duas tarefas mais difíceis a aguardar a intervenção do ex-presidente. Ele se prepara a empreender as caravanas para o Nordeste, região entregue a governadores de oposição, representantes de uma eficaz resistência à demência bolsonarista.

Tenho por Lula uma amizade irredutível e definitiva, caracterizada, contudo, pela franqueza própria desse gênero de relacionamento e das características da minha profissão. No caso está a diferença entre a alegria de um povo festeiro, quase sempre tolamente disposto a recorrer aos pandeiros e tamborins à passagem do líder, e a disposição para o confronto de quem ao ganhar a consciência da cidadania está pronto a entrar na briga ao reivindicar os seus direitos e impor os seus interesses.

O tempo é curto, obviamente, para quem não foi absolvido e para quem, sem sombra de dúvida, desenha-se a perspectiva de novos processos.

Existe, além da polarização entre o bolsonarismo e o lulopetismo, como diria um editorial do Estadão, uma faixa da população que o PT ainda poderia conquistar, hoje classificável como zona neutra da sociedade brasileira. Incluí-la hoje à área progressista devolveria completamente Lula às dimensões daquilo que já foi, em todo o espectro, a sua liderança, consagrada com 89% de aprovação ao concluir seu segundo mandato.

Digo também ao meu velho amigo que outra espinhosa tarefa o espera: recolocar seu partido na bissetriz certa há tempo perdida. De fato, entendo perfeitamente o apoio do ex-presidente à fidelíssima Gleisi Hoffmann, mas não hesito em lhe dizer da minha desconfiança à fidelidade de vários companheiros. Manifesto sérias dúvidas em relação a Fernando Haddad, o candidato à Presidência que às vésperas da eleição de 2018 elogiou Moro e a Lava Jato, sem contar a referência a figuras menores, como, por exemplo, Humberto Costa, mas habilitadas a expressar o pensamento de correntes internas.

Proponho: “Leia, por favor, a entrevista do ilustre senador ao Estadão. Apresenta um Lula que não coincide com aquele que agora fala comigo”. Ele afirma que a lerá.

Uma terceira questão está em jogo: a podridão não é própria somente de alguns setores do Estado. O golpe contra Lula para impedir a sua participação no pleito de 2018 resulta do conluio urdido em conjunto pelos poderes da República, em primeiro lugar pelo Supremo Tribunal Federal, teoricamente guardião da lei que já enxovalhou desde 2014 ao permitir a República de Curitiba e todas as ofensas gravíssimas e imperdoáveis cometidas contra a razão, a moral e a lei. Não há como confiar em muitos ministros que agora tardiamente reconhecem a inconstitucionalidade da prisão na segunda instância, muitos deles, a começar pelo presidente Toffoli, já empenhados transparentemente em inventar uma nova forma de neutralizar Lula. Estou à vontade para expor desta maneira o quanto penso, convencido pelo meu velho e admirado amigo de que a conciliação já era.

Comover-se com a derradeira decisão da Suprema Corte é uma demonstração de parvoíce até os limites da insensatez. A ameaça continua a pairar sobre o Brasil e seu maior líder popular, enquanto o País padece os efeitos da demência como forma de governo.

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