Patriotismo verde-amarelo exprime-se apenas na hora do feito esportivo

Por Mino Carta – Da Revista CartaCapital

Quando no vídeo apareceu uma praça de Lima apinhada de torcedores flamenguistas na véspera do embate do time do seu coração contra o River de Buenos Aires, fui tomado de um sentimento de vergonha. Naquele mesmo instante, outras praças latino-americanas eram invadidas pelo povo em revolta por razões mais importantes para seus países.

Até o momento, o Brasil celebra a duvidosa vitória rubro-negra e o descabelado técnico lusitano, apresentado como um taumaturgo que renova com o seu exemplo o estilo de jogo dos clubes nativos. Não se trata da verdade factual, impossível de ser praticada pelos nossos cronistas esportivos, torcedores eles também antes que jornalistas. A bem daquela específica verdade, o River merecia ganhar a partida e somente nos últimos minutos duas falhas defensivas provocadas pelo afã em procurar o segundo gol e garantir a conquista da Taça Libertadores. O quadro argentino mereceu o resultado positivo, mas Jorge Jesus exulta de mãos dadas com o artilheiro Gabigol.

Segundo os analistas do bolípodo nativo, o coach português descobriu a forma de renovar o futebol dentro das nossas fronteiras, para tornar o Brasil de chuteiras apto a enfrentar as seleções e os clubes europeus. O sentimento de desolação a me golpear deve-se à incapacidade visceral de quem não sabe sequer entregar-se a uma análise sociológica da única, exclusiva paixão brasileira.

Diz a lógica que, ao praticar o futebol, o nativo não esconde as características decisivas do nosso povo, que nos gramados já logrou mostrar a superioridade desejada e afogar os recalques, o complexo de inferioridade. O patriotismo verde-amarelo limita-se a esta torcida, às vezes bem-posta e outras tantas frustrada pelos resultados. Não há arquibancada no mundo onde não desponte o “auriverde pendão da nossa terra”, mesmo porque o melhor produto brasileiro de exportação é o jogador, chamado a atuar nos estádios de todo o globo.

Sobra uma questão intrigante: por que desse exército de profissionais não sai o herói cerebral, o personagem decisivo sempre a fazer a diferença? Apostava-se em Neymar, trata-se, porém, de um impecável representante dos mais irremediáveis defeitos do cidadão do país do jeitinho. O resto é obediente aos ditames do técnico, e empolga em vários lances porque quem o orienta sabe das coisas.

O que me surpreendeu foram os louvores aos desempenhos de Gerson no meio-campo rubro-negro, a ponto, conforme os comentaristas, de recomendá-lo à convocação de Tite. Ocorre que eu vi Gerson em ação em gramados italianos, pela Fiorentina e pela Roma. Tratou-se de atuações medíocres, tenho certeza que os dois times não sofreram com a sua partida. Já houve outros Gerson mais convincentes.

Obviamente, o assunto, e alguns mais relativos ao desempenho eventualmente modesto dos atletas nativos em terras estrangeiras, não é ventilado pelos intermináveis, diuturnos programas esportivos, infatigáveis ao exibir as nossas lacunas. Este Brasil dado exclusivamente à patriotada futebolística está perfeitamente ambientado no país de Bolsonaro. A sua inércia, o seu conformismo, a sua parvoíce explicam a eleição do ex-capitão à Presidência da República a se permitir prepotências inauditas, sem contar as bobagens inomináveis pronunciadas de cara lavada.

A mais recente nos apresenta Leonardo DiCaprio como um incendiário amoitado na Floresta Amazônica. O presidente obteve a resposta precisa deste benfeitor consciente da indispensável preservação do pulmão do mundo e a chacota da mídia estrangeira. E, para ficar no tema, Bolsonaro, em revide às críticas de CartaCapital, decide que ela é ilegível, o que talvez signifique o próximo cancelamento das 14 assinaturas da revista que o governo manteve até agora. A perspectiva tira-me o sono.

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